As Termas do Cró têm sido o guião de todas as campanhas eleitorais autárquicas no Sabugal mas… Baños de Montemayor é uma estância termal espanhola perdida no meio da Serra com águas de idênticas propriedades às do nosso Cró e com lotação esgotada durante toda a época balnear.

José Robalo – «Páginas Interiores»O desenvolvimento do termalismo tem acompanhado a história da Humanidade. Os romanos, esteio da nossa civilização, não dispensavam nas grandes obras públicas o aproveitamento desta riqueza da natureza que teve desde sempre duas funções: as termas eram utilizadas pelas suas águas com capacidades curativas e medicinais e pela sua valência social. Os banhos serviam também como lugar de encontro e convívio. Na actualidade ao termalismo associou-se a vertente estética e de lazer com os SPA.
Do ponto de vista turístico o termalismo foi associado durante algum tempo à terceira idade, sendo certo no entanto, que nos últimos tempos se tornou num turismo de moda, reflectindo um crescimento exponencial em todas as camadas etárias.
Sendo apologista deste género de turismo, testemunho que as termas têm a virtude de nos recuperar física e mentalmente desta vida agitada, que nos vai consumindo.
No início da década de 90 do século passado, conheci profissionalmente o Manolo, pessoa com quem cimentei uma profunda amizade. Tínhamos em comum entre outras, uma paixão pelos touros de morte e na Praça da Glorieta em Salamanca, partilhámos tardes de touros inesquecíveis na feira de Setembro em honra da Virgen de la Vega.
Este meu amigo era proprietário de um hotel em Baños de Montemayor, lugar insignificante, situado num vale na linha divisória das comunidades de Castilla y Leon e da Extremadura, sendo que Baños de Montemayor pertence à Extremadura, província de Plasencia.
Baños de Montemayor é uma estância termal perdida no meio da serra, recuperada com bom gosto, com águas de idênticas propriedades às do nosso Cró, mas com um fulgor difícil de descrever e lotação esgotada durante toda a época balnear.
As pessoas procuram Baños de Montemayor para tratamentos no seu balneário, descanso e lazer com todo o tipo de actividades alternativas e ocupacionais que vão desde a caça, aos passeios a pé, equitação, ténis e pesca desportiva, dando assim vida a toda aquela região.
As Termas do Cró já conheceram este fulgor no início do século passado, tendo no entanto encerrado em 1975 e votadas desde essa data ao mais completo desprezo e abandono.
Termas do CróNo Cró fui encontrar o Ti Artur Costa, o guardião do Cró, que com um olhar azul perdido na sua vida de 75 anos, puxa da memória e vai desfiando: «Conheço isto desde pequeno. Eram as freiras que tomavam conta do balneário e davam banhos. As casas estavam sempre cheias de gente que pagava rendas durante toda a época balnear. Se me apanhasse nesse tempo…» recorda com alguma nostalgia. «Apanhava peixes e vendia aos banhistas. O rio era rico de tudo, com barbos, bordalos, bogas e trutas. Corria as casas a vender peixe fresco! Até leite vendíamos, pois tínhamos as vacas aqui na quinta.»
Nos últimos tempos o zelo, amor e dedicação a este espaço por parte do Ti Artur Costa, foi compensado pela Junta de Freguesia da Rapoula do Côa, que viram neste homem a pessoa indicada para guardar e vigiar o Cró.
As obras de recuperação do espaço já se iniciaram vai para muito tempo com análise do caudal e qualidade das águas, infra-estruturas, saneamento, rede de águas, energia eléctrica, mas a exigência de planos de pormenor eternizam o seu avanço contrariando o desejável e como o concelho e a região necessitam.
Este é um projecto estruturante para o desenvolvimento do concelho, que já deveria estar em pleno funcionamento, não se compreendendo o tempo gasto e a obra que não avança, enleada na burocracia. O Cró é sinónimo de lazer, turismo e de infra estruturas com potencial elevado para atrair gente e para colocar o nosso concelho numa rota de inversão desta tendência para o despovoamento. O termalismo é equivalente a turismo de qualidade e de bem-estar, que estando na moda tem neste momento grande procura, como melhor se comprova na vizinha Espanha. Este investimento tem um potencial efeito multiplicador à boa maneira de Keynes, podendo criar muitos postos de trabalho quer directos, quer indirectos.
Diz-nos o Ti Artur Costa: «Neste momento já não trabalho para a Junta, mas continuo a vir aqui todos os dias, porque tenho aqui uma casa. As obras têm estado paradas. Antigamente a malta vinha para aqui aos banhos e às noites organizavam bailes com acordeonistas. Na festa do segundo domingo de Agosto na Senhora dos Milagres havia sempre festa rija e às vezes desentendimentos entre a malta do Seixo e a da Rapoula do Côa pela disputa da festa. A divisão é feita pela ribeira do Cró, que é a mesma que passa em Pêga.»
Hoje o Ti Artur Costa continua a vir ao Cró, já não apanha peixes porque «os não há, mas faço umas vassouras em bracejo que vendo às pessoas que vêm a fazer tratamentos e até faço por encomenda, ao preço de 50 cêntimos cada vassoura». Podemos dizer que se reconverteu de pescador a artesão.
As Termas do Cró têm sido o guião de todas as campanhas eleitorais autárquicas, com a virtualidade de conseguir o pleno e a unanimidade por parte de todas as candidaturas no reconhecimento da importância deste projecto para o desenvolvimento do concelho do Sabugal.
Como diria o poeta-pintor do grupo Orfeu, José de Almada Negreiros «É esta a Pátria de Camões, onde Camões morreu de fome e todos enchem a barriga de Camões.»
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

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