Acção, Lugar e Tempo. Trilogia, muito conhecida na arte do teatro, serve para esta evocativa memória do Natal da minha infância em Quadrazais.

Jesué Pinharanda – Carta DominicalQuanto à acção, pois equivale à celebração natalícia, em que um Menino nos foi dado para se constituir redentor de Humanidade.
O lugar era uma aldeola sita na raia beiroa, na margem do alto Coa, rés-vés a Espanha.
O tempo, deveras complexo: ainda se faziam sentir os efeitos sociais da Guerra Civil espanhola, que deveras afectara o tradicional comércio fronteiriço e popular, e logo se começaram a viver as dificuldades resultantes da II Grande Guerra, na qual o nosso País se não envolveu, mas que houve de sofrer as consequências económicas, mediante a carestia de vida e o necessário racionamento de muitos produtos que escasseavam no mercado. Como o açúcar. As filhós são boas com ou sem açúcar, mas um pouco polvilhadas do branco maná sabem muito melhor. Faltava, porém, o açúcar. E também o azeite para fritar a massa. As sopas podiam ser temperadas com um pedaço de toucinho, mas para fritar só com azeite, pois na época outros tipos de óleo não tinham expansão.
Natal em Quadrazais (fotos de www.quadrazais.net)Tempo frio. Por vezes, os campos nevados. Fazia sentido a loa:
«Ó meu Menino Jesus,
Ó meu Menino tão belo,
Logo vieste nascer
Na noite do caramelo».

Arrecadados os frutos estivais da terra, sobretudo o pão e as batatas, já nos campos germinavam novas searas, ainda em marfolho. O Natal abria uma clareira nos trabalhos e nos dias. A garotada, e éramos mais de uma dezena, ansiava por receber odem das catequistas para ir ao musgo e aos ramos de hera, para se erguer o presépio, no altar de Nossa Senhora do Rosário, do lado do Evangelho. Descomedida, por falta de estimativa, trazia musgo e hera que chegavam para mais do que um presépio, que as senhoras montavam, portas da igreja fechadas, para só se ver na missa do galo. Era a magia das imagens. Para as crianças, mais do que imagens – santinhos, incluindo os pastores e outras figuras e, talvez, até, o galo, e o cão do pastor, todos, alfim, filhos do mesmo Criador, ali presente na imagem do Filho, ainda bebé, na caminha de espigas de centeio deitado, sob o olhar dos pais e do bafo da vaquinha e do burrinho.
(Continua no próximo domingo).
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

pinharandagomes@gmail.com

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