Foi um dos momentos mais hilariantes do ano, correu mundo, deu azo a todas as interpretações: «¿Pero por qué no te callas?» O «pero» foi quase inaudível, quase ninguém o captou, mas aí estava para os ouvidos mais atentos. Talvez o assunto tivesse tido menos transcendência se o rei tivesse dito ao ditador: «¿Pero, por qué no le dejas hablar?»

José Robalo – «Páginas Interiores»Ao longo da história da Humanidade a liberdade de expressão e pensamento têm sido uma das pedras de toque da arte de viver em sociedade, não sendo infrequente que de vez em quando um louco com poder ponha em causa esta essência do ser humano. Como escrevia o poeta Antero, «a liberdade não é tudo, mas é o primeiro passo para se alcançar tudo o que é justo e santo».
«Clama ne cesses» é uma expressão latina, que se encontra inscrita no púlpito datado de 1692, da Igreja de estilo românico de Águas Belas, que significa «Fala, não te cales» e que reproduz parte de uma das epístolas de S. Paulo a Timóteo, onde o exortava a expandir a palavra de Deus com inteira liberdade e coragem.
Como nos refere o amigo e pároco de Águas Belas, dr. Francisco Vaz, professor de Latim aposentado, «a Igreja de Águas Belas, sendo românica deverá datar do século XIII, com marcas deste estilo nomeadamente, as portas redondas e os cachorros dos beirais, sendo certo que foi objecto de posteriores intervenções, nomeadamente no século XVIII, com a introdução das janelas, com data de 1756 inscrita em vários locais e na sacristia existe um lavatório desse ano, nitidamente encastradas na parede. O orago é Santa Maria Madalena».
Sobre a porta principal podemos ainda encontrar uma cruz dos Templários, sinal evidente que este lugar interessou em tempos a esta ordem religiosa, extinta como se sabe a uma sexta-feira, dia 13 de Outubro de 1307, por Filipe, o Belo. Ainda hoje referimos ser dia aziago a sexta-feira 13, por referência a tal data.
Águas BelasEsta jóia arquitectónica está no entanto votada a algum abandono, devendo merecer da parte das autoridades maior atenção e cuidados, nomeadamente a substituição daquele muro exterior de blocos, por outros materiais que dignifiquem o local.
O Presidente da Junta de Freguesia, Raul José Luís, refere: «Águas Belas, já foi centro nevrálgico na exploração do minério, com as minas localizadas no termo da freguesia, mas esse fulgor perdeu-se e a freguesia está despovoada, devido à emigração e falta de postos de trabalho. Concluídas as obras de saneamento, e renovação da rede de águas, é importante recuperar o Largo da Igreja», para acrescentar com alguma indignação que «também não posso admitir que a sede da freguesia esteja a 16 quilómetros de uma anexa como Vale Mourisco, se com uma nova estrada de ligação entre estas duas localidades poderíamos ficar a apenas seis».
Por outro lado, no entender de Raul José Luís, deveria haver mais investimento produtivo, para que as pessoas se pudessem fixar nas aldeias, contrariando assim esta desertificação humana, que nos vai empobrecendo a todos.
João Filipe Cunha, é um jovem natural de Águas Belas, amante como ninguém da sua aldeia, mas que por circunstâncias madrastas da vida, reside na Guarda. O João tem 16 anos de idade e é um virtuoso do piano. «Comecei a tocar piano com 11 anos, porque para mim o piano é um instrumento emocionante. Tocar é um desafio permanente, proporciona-me prazer, como acho que os meus colegas terão prazer a jogar futebol.»
Encontro o João Filipe no Conservatório antes de uma audição e com responsabilidade e respeito pelas pessoas que o vão ouvir, pede-me «desculpa, mas só já falta uma hora e tenho que continuar o ensaio». O João Filipe é um perfeccionista, com uma capacidade de progressão enorme, sendo já um caso sério na forma apaixonada como aborda cada nota e cada peça que executa. Esta noite, o programa será preenchido com Claude Debussy. «Os meus compositores preferidos, são Beethoven, Mozart, Debussy e Chopin. Como tenho a chave do Conservatório, ao fim de semana, aproveito para com tranquilidade fazer aquilo que mais gosto: tocar piano.»
Ouvir este virtuoso do piano, onde todo o corpo se movimenta em duas mãos, mais parecendo duas aranhas que com magia correm todo o teclado, numa fria noite de Dezembro, é um privilégio só para alguns, dos quais fiz parte.
Com o olhar perdido de sonhador, o João Filipe, faz-me uma última confidencia, um desejo de curto prazo: «Gostaria de dar um concerto para piano na minha terra, o Sabugal, agora que sei que tem um auditório com muito boas condições acústicas.»
Digo adeus ao João vindo-me então à memória a tal exortação inscrita no púlpito da igreja de Águas Belas, «Clama ne cesses», sendo certo que o João Filipe merece ser ajudado e apoiado.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

joserobaload@gmail.com