Os castelos do concelho do Sabugal são um excelente cartão de visita turístico. O de Vilar Maior parece brotar de um conto infantil. Mas… apesar de tantos e tantos motivos de interesse a freguesia tarda em ser considerada aldeia histórica.

José Robalo – «Páginas Interiores»Tenho uma prima na raia
Outra em Vilar Maior
Se a da raia é bonita
A outra é muito melhor.
(Canção popular interpretada pelo Rancho Folclórico do Sabugal)

Chegou-me às mãos, por oferta do seu tradutor e achador, o insigne latinista já falecido Miguel Pinto de Menezes, a Crónica de D. João II da autoria de Manuel Telles da Silva, conde de Vilar Maior, «pessoa que desde a infância abraçou a disciplina militar e aprendeu a arte de conduzir exércitos», edição com a chancela da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
Na dedicatória refere o autor: «Ao prezado José Robalo, pelo gosto que me deu numa conversa de Agosto em seu escritório de o saber afeiçoado às Letras e nomeadamente à História de Portugal.» Cegueira dos amigos…
Manuel Telles da Silva (1641-1709), conde de Vilar Maior, foi uma das mais ilustres personalidades do seu tempo, distinguindo-se na actividade diplomática, com a celebração do contrato matrimonial de D. Pedro II em 1687 e na negociação do tratado de Methuen com a Inglaterra em 1703.
Vilar Maior tem história e foi um bastião na defesa avançada dos territórios do reino de Leão, até ao tratado de Alcanices, perdendo a partir de então paulatinamente a sua importância militar, até porque com o tempo, a diplomacia foi-se impondo na relação entre os dois reinos.
Em Vilar Maior, o castelo imponente domina a paisagem, lembrando ao viajante que aquelas terras já foram importantes estrategicamente e que os nossos antepassados foram súbditos do reino de Leão. Aqui, as pedras falam e tudo está impregnado de história: a ponte romana, o pelourinho, o pombal, as sepulturas antropomórficas, as ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Castelo, a Igreja de S. Pedro, a muralha, as fontes romanas de mergulho, a paisagem…
Vilar MaiorO Castelo de Vilar Maior é um dos mais bonitos que conheço, que pelo seu encanto, parece brotar de um conto infantil. Apenas necessitamos de tempo para dele desfrutar.
Pena é que ainda não tenham reconhecido o encanto destas jóias arquitectónicas e que Vilar Maior, ainda não tenha sido etiquetada de aldeia histórica. Sem serem importantes os títulos ainda definem roteiros turísticos.
António Cunha, presidente da Junta de Freguesia, com alguma decepção na voz, lamenta «que a candidatura a aldeia histórica não tenha tido sucesso, aquando de tal reconhecimento a Belmonte e Trancoso. Gorou-se mais uma oportunidade, agora que o município tem investido na freguesia, no saneamento e implantação subterrâneas da rede eléctrica e telefones, com a reposição de calçadas e a requalificação dos largos. Tudo vai ficar muito mais bonito».
Quercus Pyrenaica é o nome científico do carvalho negral, ou pardo das Beiras.
Partindo de Vilar Maior, em direcção a Aldeia da Ribeira, Batocas, Nave de Haver e Malhada Sorda, podendo utilizar trilhos tradicionais e devidamente sinalizados e cuidados, encontramos um milagre da natureza: a maior mancha do País e uma das maiores da Europa, desta espécie, aguardando por um título, que lhe garanta protecção e interesse turístico. A inventariação desta realidade, já foi feita, tardando a sua classificação, apesar de estar integrada na rede Natura 2000.
A professora Maria Delfina Marques, apaixonada de Vilar Maior, tem feito um trabalho na promoção da aldeia, que já foi vila e sede de concelho e na conservação de objectos e tradições, com a criação do museu etnográfico de Vilar Maior: «O museu tem uma componente etnográfica, religiosa, do mundo rural, instrumentos musicais e uma pequena biblioteca.» Afirma que «tudo começou na escola, com as crianças, tentando afastá-las da rua, incutindo-lhes o gosto por estes objectos que à partida elas desvalorizavam. No Verão com o posto de turismo a funcionar, o forno comunitário e a casa da padeira, o nosso museu é muito visitado, recebendo cerca de 2000 pessoas por ano, e até já tivemos visitas de turistas coreanos».
Figura incontornável da vida de Vilar Maior, António Gata, sempre nos vai confidenciando: «O património é a âncora que nos pode ajudar a combater esta desertificação, tornando-se necessária a sua reabilitação, não sendo suficiente a sua classificação de interesse público, concelhio, ou monumento nacional, como já aconteceu. Uma vez reabilitados, devem ser colocandos ao dispor de quem deles queira usufruir, sob pena de tudo não passar de operações de cosmética e de criação de ilusões. A reabilitação deve prevalecer sobre qualquer classificação.»
António Gata, agarra-se ao amor que tem a estas terras e com a convicção dos que estão do lado da razão, afirma: «A minha terra tem todas as condições para ter futuro, desde que numa acção concertada de todos no terreno, simples cidadãos como é o meu caso, os agentes económicos, os políticos, mesmo com pontos de vista diferentes, com divergências saudáveis, que servem para aprofundar o debate para a obtenção de consensos. Nesta perspectiva Vilar Maior tem potencialidades para ser pólo de atracção turística, conciliando o turismo de natureza, com o do património construído.»
Ao abandonar este burgo medieval partindo lá do alto das ruínas da Igreja de Santa Maria do Castelo e numa atitude de devido recolhimento, digo mais uma vez adeus ao meu querido tio Zé da Ruvina, para nós Ti Zé da Vila, que sepultado aos pés do castelo de Vilar Maior, dir-se-ia que passa a sua morte de férias…
«Páginas Interiores» de José Robalo

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