A Junta de Freguesia da Rebolosa, liderada por um presidente jovem e dinâmico, tem desenvolvido um trabalho interessante na dinamização da Festa de Santa Catarina.

José Robalo – «Páginas Interiores»Santa Catarina
Senhora do Almortão, oh minha rosa encarnada
Ao cimo do Alentejo chega a vossa nomeada
Senhora do Almortão, oh minha linda raiana
Virai costas a Castela, não queirais ser castelhana.

Estes versos populares, interpretados de forma magistral pelo saudoso amigo José Afonso, ao vivo no Coliseu dos Recreios, retratam a devoção das gentes da raia a Nossa Senhora num misto sagrado e profano, tão característico do culto popular. É verdade que na nossa raia as pessoas não concordam com este último verso, visto Castela ter sido ao longo do tempo parceiro de intercâmbios, que nos permitiram algum desafogo económico.
Vem tudo a propósito da Santa Catarina que amanhã, dia 25 de Novembro, em formato de festa religiosa e feira tem o seu expoente máximo na Rebolosa, trazendo à prova as novas carnes de porco.
A D. Maria Joaquina, que numa tarde soalheira, junto à igreja matriz da Rebolosa, com duas agulhas tecia uma teia em tudo igual à de Penélope e que dava a ideia de estar ali desde que o mundo é mundo, à espera do viajante, parecendo adivinhar de antemão ao que vínhamos, desenredou: «Na festa de Santa Catarina toda a gente na Rebolosa come carne de porco. Isto é já um hábito muito antigo, já os nossos avós festejavam desta forma a nossa padroeira. A Santa Catarina resistiu ao pai que não queria que ela tivesse práticas religiosas católicas. O pai que era rei, mandou matar a filha com uma roda de 10 a 12000 navalhas. No momento em que Santa Catarina ia ser anavalhada, a roda rebentou e tudo correu em prejuízo dos seus algozes.» Que pai cruel!…
Estas cenas estão retratadas no altar-mor da Igreja matriz da Rebolosa e num fresco colocado no tecto da Igreja, superiormente conservado para quem quiser comprovar! Não passa despercebido ao viajante mais distraído que na Rebolosa existe grande devoção por Santa Catarina e que a Igreja Matriz é um primor na limpeza e conservação.
RebolosaA Junta de Freguesia da Rebolosa, liderada por um presidente jovem e dinâmico, tem desenvolvido um trabalho interessante na dinamização da Festa de Santa Catarina.
Manuel Barros, Presidente da Junta de Freguesia, confidencia: «Desde tempos imemoriais que se associa esta data ao início da matança do porco e se alguém a fizesse antes deste dia, não era visto com bons olhos. Chegou até nós a expressão, vamos à Rebolosa tirar a licença, razão pela qual e simbolicamente, a Junta de Freguesia está a emitir licenças para os visitantes.»
Quando as eleições autárquicas eram em Dezembro, cada quadriénio, a Santa Catarina era o local por excelência para os partidos e candidaturas mostrarem a sua força, o que teve o mérito de dar a esta festa a nomeada que vinha perdendo.
Para os filhos da aldeia, segundo Manuel Barros e uma vez que «o orago da Freguesia é Santa Catarina e porque a Rebolosa já se chamou Santa Catarina, a vertente religiosa tem muita tradição com a missa e a procissão, pela manhã bem cedo para se ter tempo de ir até à feira preparar os assadores, onde é degustada a carne de porco e o vinho da terra. A festa implica uma visita guiada às adegas, com a prova do vinho novo».
Historicamente esta feira local era a vara de medir, onde se definiam os preços da carne de suíno para as matanças, sendo palco privilegiado das transacções comerciais.
Naturalmente que hoje esta feira já não tem estas funções, até porque o porco, perdeu a importância que tinha na economia doméstica do nosso concelho, mas serve isso sim para os amigos se encontrarem e confraternizarem. Nos últimos anos tenho sido convidado do amigo Manuel Cunha, o inefável «Jordão» das Batocas que faz questão de oferecer aos amigos e a quem se queira aproximar, uma prova gratuita dos seus porcos pretos de bolota de altíssima qualidade.
A Santa Catarina serve assim para se necessário fosse demonstrar que na nossa raia se produz em quantidade e qualidade porco ibérico (preto) de bolota, produto que poderia e deveria ter certificação com denominação de origem.
Penso ainda que esta Santa Catarina poderia ser a alavanca para a promoção do nosso produto de qualidade e servir como rampa de lançamento das cozinhas tradicionais, com produção certificada dos nossos enchidos, que com orgulho podemos afirmar, são os melhores do mundo.
Sendo a Santa Catarina uma festa genuína do mundo rural, com adesão popular que se perde no tempo, será despiciendo pedir a quem nos governa, que aposte neste evento para o enobrecer, transformando-o numa agro-alimentar que promova o concelho e os seus produtos?
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

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