A grande produção de cereais na freguesia alcunhou de Lomba dos Palheiros uma aldeia que viu o Ministério da Indústria encerrar as suas fábricas dos sabões por falta de luz eléctrica.

José Robalo – «Páginas Interiores»«A Lomba dos Palheiros, foi assim designada porque havia por aqui muitos palheiros de palha centeeira; era uma zona muito forte em cereais.» Quem assim fala, com um brilhozinho nos olhos, é o meu querido amigo e Presidente da Junta de Freguesia, filho adoptivo da terra, Domingos Romão. No entanto e como quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto a esposa, professora aposentada, peremptória sustenta: «Diz-se que quando os romanos invadiram a Lusitânia, os nossos antepassados para fugirem à espada dos soldados romanos, escondiam-se nos palheiros existentes aqui na Lomba, sendo que estes serviram de esconderijo, dando assim fama ao local, que chegou aos nossos dias.»
A Lomba já foi uma aldeia com muita gente e actividade, que nos anos 20 do século passado, vivia das duas fábricas de sabão existentes na freguesia. Diz o meu amigo Domingos: «Tínhamos dois alvarás para duas unidades industriais na produção de sabão. O Ministério da Indústria resolveu não renovar os alvarás porque na freguesia não existia energia eléctrica, condição sine qua non para na altura se produzir sabão com alguma salubridade.»
Lomba dos PalheirosLá vêm mais uma vez os tais, sempre os mesmos de Lisboa, a cercear o nosso direito a sermos felizes aqui no Interior.
Fui encontrar o meu amigo Daniel Dias Nunes, proprietário de uma fábrica de sabão a «V.ª Luís Nunes & Filhos, Lda.», bem no coração da cidade da Guarda, junto à Escola de S. Miguel, que me confirma que no século passado existiram duas fábricas de sabão na Lomba, sendo «uma do meu avô e outra duns primos. O sabão inicialmente era vendido em sacos para a raia e carregado por burros sendo contrabandeado, pelos quadrazenhos».
Estas fábricas que se socorriam de métodos tradicionais rudimentares e matérias-primas como as olainas (borras) de azeite, soda e mais tarde óleo de palma, abasteciam o mercado nacional e as feiras da região nomeadamente Pousafoles do Bispo, Pêga, Vila do Touro, Sabugal e Alfaiates.
Uma das fábricas ardeu, não havia energia, os acessos eram maus e nos meados dos anos 60, enquanto os Beatles criavam furor e revolucionavam os costumes, os estudantes em Paris faziam greves e lutavam pela afirmação da liberdade, a família Nunes investia na Guarda, criando uma nova unidade industrial.
Foi a fase da internacionalização, em que os produtos das fábricas de sabão conquistaram novos mercados, nomeadamente nos Estados Unidos e hodiernamente o mercado africano (Angola) para onde o produto era remetido em contentores.
Com saudades o Daniel sempre vai dizendo: «Na Lomba, da cozinha da casa dos meus avós, tínhamos acesso à zona do fabrico do sabão, para a caldeira». Mas hoje os tempos são outros e com algum azedume acrescenta: «A União Europeia impõe regras incomportáveis para as pequenas empresas, acrescendo que os novos concorrentes a oriente, colocam a nossa actividade em dificuldades.»
Será que não é possível aproveitar o fulgor do passado, esta energia positiva, este know-how, localizado na Lomba, para com um projecto, uma candidatura a este novo QREN que aí está, revitalizar uma actividade que já deu nome à freguesia, numa aposta de qualidade e para mercados mais exigentes onde os orientais não sejam concorrentes?
«Páginas Interiores» de José Robalo

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