As Persíades são a chuva de estrelas mais conhecida para os amantes da observação do céu. O seu nome está inspirado na palavra Perseu, que não é mais do que a designação da constelação donde parece nascer esta chuva de estrelas, ou seja de nordeste.

José Robalo – «Páginas Interiores»Este espectáculo pode ser observado todos os anos entre 25 de Julho e 18 de Agosto, sendo que atinge o seu apogeu na noite de 12 para 13 de Agosto, com a passagem do cometa, sendo ainda visíveis nesta época do ano, os planetas Vénus, Marte e Saturno.
O concelho do Sabugal é um território privilegiado para que nos possamos deleitar com este espectáculo da natureza. No passado mês de Agosto aproveitei o céu limpo para numa dessas noites fazer a pé o trajecto que liga a Ruvina a Aldeia da Dona, para me encontrar com o meu amigo Joaquim Borregana, o artista plástico Kim Prisu.
Aldeia da Dona é uma anexa da freguesia da Nave, já com pouca gente, mas com uma associação local muito activa e empenhada em ressuscitar as tradições da aldeia, os usos e costumes dos nossos avós, dando-lhes visibilidade. Esta actividade é tanto mais meritória quando é desenvolvida por jovens que de regresso às origens tentam compreender os seus atavismos.
O viajante que passar por Aldeia da Dona fica extasiado com o talento patente nas diferentes esculturas que se encontram espalhadas pela aldeia, retratando a vida do campo árdua e milenar dos nossos antepassados, esculturas que recuperam materiais da lavoura, que de outra forma teriam como destino o esquecimento e o lixo.
Kim Prisu, numa conversa animada relata-me como tudo surgiu: «Pretendi com o amigo A.L. Tony, criar uma escultura que funcionasse como valorização sedentária naquele lugar específico, uma obra cuja plástica está no seu presente e nos olhos interiores da memória dos habitantes de Aldeia da Dona onde nascemos e que deixámos para ir para a França, onde regressávamos no Verão.»
Kim Prisu em Aldeia da Dona«Com estes trabalhos que reflectem as memórias da infância a que acresce o que tinha aprendido da expressão plástica, quis homenagear, e criar um ponto de referência para a nossa memória colectiva, de um passado ainda tão próximo, mas em via de extinção.»
Este trabalho torna Aldeia da Dona numas das aldeias com maior riqueza cultural em espaço rural, um museu a céu aberto, trabalho que poderia e deveria ser divulgado como ponto de atracção turística e pedagógica, mas que teimosamente continua abandonado e desprezado por quem tem a incumbência de o fazer.
Diz Kim Prisu: «O lavrador feito com ferros agrícolas, foi a primeira escultura a ser feita, uma representação simples, gráfica, em três dimensões.
As pessoas da aldeia ajudaram-nos na colocação das três pedras do pedestal até porque os mais velhos tinham o domínio de certas técnicas ligadas à deslocação de pedras de granito. As pessoas gostaram e conseguimos levar arte numa estética não clássica, a pessoas que nunca viram um Picasso, nem nunca entraram num museu, nem têm ideia do que é a arte.»
Acrescentaria que tudo isto foi feito sem subsídios ou apoios do Ministério da Cultura.
Fica o convite a quem não conhece, para visitar Aldeia da Dona e deleitar-se com esculturas de grande sensibilidade artística, objectos e artefactos que nos reportam à nossa profunda identidade, sendo ainda certo que esta aldeia possui arquitectura urbana popular com muito interesse.
Quanto ao artista Kim Prisu, que vive e trabalha em Palmela, onde tem o seu atelier, está disponível para no Sabugal, fazer uma grande exposição no mês de Agosto, para que a terra que o viu nascer, lhe consagre de uma vez por todas o transbordante talento.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

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