Acreditar no Talmud, Deus criou o homem, para o ouvir contar histórias. Esta é uma perspectiva. Outra, pretende que precavendo-se Deus de uma eventual Alzheimer divina, inventasse o ser humano dotando-o da faculdade de recordar.

José Robalo – «Páginas InterioresCreio ter lido em 1984 um romance de João Aguiar, que intitulou A Voz dos Deuses. É verdade que na altura deliciavam-me os existencialistas e surrealistas, no meu mundo de leitor. Este João Aguiar chegou-me às mãos por acaso, mas como romance histórico que era, de leitura muito leve e interessante, teve o condão de tornar as minhas leituras mais leves por algumas horas. O livro lê-se de um fôlego e lançou uma carreira de um escritor que ainda hoje vive exclusivamente da arte de contar histórias, o que num país como Portugal, é digno de mérito e respeito.
A história gira toda ela à volta de um herói (Viriato) e de um povo (Os Lusitanos), que ainda hoje alguns acreditam ter sido este povo de pastores e guerreiros, os nossos mais directos antepassados.
É também um facto histórico incontornável, que este povo de guerreiros desconhecia a produção do vinho, até porque a vinha acompanhou a expansão do cristianismo e chegou à Península pela espada dos romanos, já numa fase posterior. Os nossos antepassados faziam libações aos seus deuses com cerveja. Plínio nos seus escritos, faz alusão ao uso da cerveja na Península, com o nome de célia ou céria, sendo produzida e consumida em grandes quantidades pelos Lusitanos. A célia ou céria era uma bebida de fabrico rudimentar, que facilmente provocava a embriaguez, objectivo último destes pastores/guerreiros quando festejavam as suas vitórias sobre as legiões romanas.
Na Bíblia, do Livro dos Génesis aos Evangelhos, o vinho corre em abundância; é sabido que Deus recompensou Noé após o dilúvio, com a oferta da vinha. O vinho é referido 441 vezes ao longo de toda a Bíblia e apesar da conversão dos povos peninsulares ao cristianismo e ao culto do vinho, até porque Jesus Cristo na última Ceia, na companhia dos Apóstolos e antes de morrer, transformou o pão e o vinho nos alimentos mais populares do mundo ocidental; a cerveja é no entanto anterior a toda esta romanização, por já ser à época produzida e consumida pelos nossos antepassados no território que é hoje o Sabugal.
Integrados num ocidente judaico-cristão, com um pensamento moldado pelas culturas grega e latina, por povos que a todo o momento faziam libações aos deuses e celebravam vitórias à volta do vinho, é certo que os divinos Aquiles, Ulisses e Heitor nunca foram ou poderão ser transcudanos; mas que dizer do não menos divino Viriato que como nosso antepassado directo (segundo alguns autores terá nascido em Loriga)? Será que não aprovaria a realização de uma festa da cerveja na sua Lusitânia?
Depois da minha última colaboração veio ao meu conhecimento o desaparecimento de José Luís de Vilallonga, natural de Madrid, mas exilado político em Paris por opositor ao regime de Franco. Escritor e actor trabalhou entre outros com Fellini, Louis Malle e Blake Edwards. Como escritor colaborou regularmente com o El País, ABC, El Periódico e La Vanguardia. Apesar da sua obra literária ser publicada originariamente em francês, destaco La cruda e tierna verdad. Memórias no autorizadas.
Da última obra que adquiri e li deste mestre, Politicamente incorrecto, um livro de crónicas, retiro este pequeno extracto, que transcrevo em castelhano:
«Los gigantes siempre han molestado. Sobre todo – o mejor dicho, exclusivamente – a los enanos. A veces, los enanos – que también suelen serlo mentalmente – se equivocan de gigante y, en lugar de matarlo o de aserrarlo, se ponen de hinojos y, hundiendo la frente en el polvo, le adoran. Esto les ocurrió a los enanos españoles con Franco. Desconocian por lo visto el prudente consejo de Novalis: Cuando vean ustedes a un gigante, observen cuidadosamente la posicion del Sol, pues bien pudiera ser que el gigante no sea mas que la sombra alargada de un enano. En general, eso es lo que ocurre, porque gigantes genuínos, de verdad, hay muy pocos. Tan pocos hay que los enanos no suelen reconocerlos.»
Em Espanha, exilado em Paris tínhamos um.
Paz à sua alma.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

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