Maria Mim é um romance de denúncia e de revolta, face à perseguição que o Estado exercia sobre os contrabandistas quadrazenhos, que não eram ladrões nem fascínoras, como os pintavam as autoridades, mas antes pessoas honradas e virtuosas.

«Maria Mim» de Nuno de MontemorO livro fala da boa gente, de costumes sãos e inatacável honestidade, que povoa a freguesia. Apaixonado pelo contrabando, por viver junto à raia, a um passo de Espanha, e por ter de sustentar a família, o quadrazenho fazia-se à noite, de carrego às costas, enfrentando sem medo as armas de guardas-fiscais e carabineiros. Por exercer negócio ilícito era perseguido pelas autoridades e olhado com desconfiança por povos de outros lugares, o que o obrigou a criar uma linguagem própria, a gíria quadrazenha, para assim iludir quem o espiava e lhe ouvia as conversas.
O romance inicia-se tendo por pano de fundo o cordão sanitário formado pelos militares na raia sabugalense para evitarem que a cólera chegasse a Portugal e começasse a ceifar vidas. O ridículo e ineficaz dispositivo influiu na vida dos contrabandistas que tiveram de contornar mais um obstáculo para comerciarem com os povos do outro lado da fronteira. É aqui que aparece a quadrazenha Maria Mim, de «cabelos de seara madura e o rosto da cor do trigo, quando sai corado do forno», que, qual deusa Ceres, encanta o alferes Júlio Marinho, que chefiava um sector do dispositivo militar. Dali nasceu uma paixão mútua, sempre comedida pela solidez de princípios da quadrazenha, que já tinha um «conversado» ao qual quis ser fiel, e pela honradez do militar que respeitava os valores daquela gente boa e honesta.
No desenrolar do enredo aborda-se a forma de vida em Quadrazais e demais terras raianas, descrevem-se as ricas paisagens e a beleza dos monumentos do Sabugal, conta-se a lenda da Rosa da Montanha, expõe-se a organização da tradicional capeia arraiana. O romance culmina na concorrida romagem à Senhora da Póvoa, em Vale de Lobo, no sopé da Serra da Opa, onde os raianos afluíam em peregrinação.
Nuno de Montemor, pseudónimo do padre Joaquim Álvares de Almeida, não tinha uma pinga de sangue quadrazenho. Nasceu na aldeia porque os pais, oriundos de Pêga, aí haviam instalado uma fábrica de sabão. Saiu mesmo de Quadrazais ainda criança, afastando-se da terra de nascimento. Mas nunca esqueceu, nas suas próprias palavras, o dizer de sua mãe: «se um dia fores homem, lembra-te sempre da terra onde nasceste, porque não há gente boa como a de Quadrazais…». Os anos correram, o então menino fez-se homem e cumpriu o desejo da mãe escrevendo o livro Maria Mim, dedicado à gente boa, mas incompreendida, da terra onde nasceu.
plb

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