Em Junho de 2006, durante três dias, realizaram-se no Auditório Municipal do Sabugal as Jornadas do Contrabando, onde diversos oradores falaram numa actividade que marcou a orla raiana do concelho do Sabugal. Já este ano foi publicado o respectivo livro de actas.

Livro de Actas das Jornadas do ContrabandoA Empresa Municipal Sabugal+ editou há dois meses o livro de actas de umas jornadas culturais que marcaram o ano transacto e que recolheram valiosos testemunhos de uma aventura que deve ficar na nossa memória colectiva.
De entre os textos publicados há que realçar o da intervenção do escritor bismulense Manuel Leal Freire, que nas jornadas abordou a influência do contrabando na alimentação do corpo e da alma. Falou de ementas gastronómicas e de poesia de origem charra – a linguagem meio portuguesa meio castelhana que era falada na raia.
Evocando Garcia Lorca, o poeta granadino morto pelos franquistas, Leal Freire viajou ao encontro da alimentação dos raianos que viviam da candonga. Era uma comida frugal, com os produtos que a terra dava. As trovas populares constituem um testemunho incontornável, onde as tradições, as façanhas e a alimentação dos povos está muito presente. Caldo de vagens, caracóis com azeite e vinagre, gravanços com toucinho, batatas com pimentos, peixe de escabeche, e até um guisado de gato tomado por coelho, são algumas das referências gastronómicas que o orador evocou.
António Ballesteros Doncel, escritor nascido em Badajoz, fez uma retrospectiva histórica da evolução da fronteira e das relações entre os dois povos. A província espanhola da Extremadura foi marginalizada por Espanha, facto que contribuiu para a actividade de contrabando com Portugal, procurando assim a sua redenção económica. A valentia na aventura do comércio ilegal com Portugal pertenceu aos «Mochileros» – «Essos personajes semi-felinos que en su trabajo no empleaban médios sofisticados, unicamente usaban la astúcia, la resistência física y un exhaustivo conocimiento del terreno». Era gente pobre, que dava o corpo às balas para ganhar vida. Eles foram os verdadeiros heróis do contrabando, os que na prática o possibilitaram, e os que daí tiraram o menor proveito. Às vezes eram abatidos a tiros de fuzil pelos guardas, que os tratavam muito mal, sujeitando-os a maus-tratos físicos se lhes deitassem a mão: «La vida de un Mochilero vali aproximadamente el equivalente a vienticinco kilos de café».
Norberto de Oliveira Manso, mestre em Antropologia e presidente da Sabugal+, fez uma análise social e económica à actividade do contrabando, concluindo que permitiu a muitos a sobrevivência e a alguns avultados ganhos. Toda a região beneficiou da actividade, não apenas pelo matar da fome aos mais carenciados, mas também pelos alargados investimentos efectuados pelos que ganharam muito com a actividade. «O contrabando quebrou o isolamento, abrindo novos mercados e novas perspectivas, e promoveu o espírito aventureiro», o que muito contribuiu para que depois nos metêssemos numa nova proeza: a emigração.
Adérito Tavares, professos universitário natural de Aldeia do Bispo, falou no tráfico transfronteiriço na raia sabugalense durante cem anos, entre 1880 e 1980, que foram tempos de relações proibidas entre os dois povos que viviam junto à fronteira. A aturada análise foi acompanhada pela apresentação de abundantes quadros estatísticos, de onde sobressaem os números das guarnições da Guarda Fiscal e das mercadorias apreendidas ao logo dos anos. Nas décadas finais do estudo as apreensões diminuem, o que é reflexo da perda sucessiva de população, que foi emigrando, deixando o contrabando e procurando novas formas de ganhar vida além-fronteiras.
José Manuel Campos, professor e autarca dos Fóios, contou deslumbrantes e saudosas histórias do contrabando. Aventuras e curiosidades que se contavam à lareira, evocando tempos difíceis que enchem a memória de quem viveu as façanhas. São histórias deliciosas, contadas por quem tem o jeito especial da narrativa, que nos deixam água na boca, porque evocam um passado problemático e representativo da heroicidade das nossas gentes. Por entre as dificuldades e as contrariedades, nunca faltava o humor e a boa disposição que nos tornou possível subsistir com ânimo.
O livro de actas tem também os textos das intervenções de Angelina Gomes e Pedro Sousa, que falaram do espaço museológico Memória e Fronteira, evocativo do contrabando em Melgaço, e de Maria de Fátima Calça Amante, que abordou a experiência que foi a geminação entre Foios e Las Eljas. Contém ainda a intervenção de Luís Cunha sobre a memória do contrabando em Campo Maior e de António Cabanas, sociólogo que abordou as peripécias do contrabando, num jogo de estratégia entre os homens da candonga e os que tinham a missão de vigiar as fronteiras.
O valioso livro de actas está à venda na Câmara Municipais do Sabugal, valendo bem a pena adquirir e ler com toda a atenção.
plb

Anúncios