Joaquim Bravo, artista plástico português, natural de Évora, figura incontornável da nossa pintura contemporânea, deu em 1973 a uma das suas telas o seguinte título: «Em Portugal não há montanhas como no romantismo.» Sem me debruçar sobre a inspiração do desenho em si, que é do mais belo que a nossa pintura contemporânea produziu, sempre me intrigou o enigma do título.

José Robalo – «Páginas InterioresO pintor ou não conhecia o Pico da ilha com o mesmo nome, ou conhecendo-a, o que é mais natural, não a teve em consideração ao fazer tal afirmação. Dizia-me um amigo meu mais dado a tergiversações, que realmente o romantismo foi um movimento cultural e artístico que produziu muitas montanhas…
Na ilha do Pico a montanha é imponente, domina e absorve tudo, é uma referência exclusiva. De formação vulcânica e sendo a mais recente do arquipélago, de entre o seu solo basáltico, qual milagre da natureza, no século XIX, as vinhas do Pico chegavam à mesa do Papa, do Imperador e do Czar. Este vinho verdelho foi perdendo o seu fulgor cosmopolita com a queda dos impérios e com a revolução bolchevique. As vinhas do Pico forneceram com requinte as mesas dos czares.
As pinturas gastronómicas dos AçoresEsta casta tradicional, o verdelho, aliada a outras castas tal como o Arinto, Plansel, Seara Nova, que crescem num terroir lava, património mundial da Unesco como paisagem natural, é responsável na actualidade pela produção de um vinho branco de eleição, satisfazendo os apreciadores mais exigentes, sendo as maiores referências, O Terras de Lava, O Curral Atlantis e o Frei Gigante.
Vinhos brancos, que para além das condições naturais, são trabalhados por enólogos ciosos de produzirem caldos de eleição, que podem acompanhar pratos de peixe, abundante neste mar dos Açores, que vão desde a garoupa, goraz, rocaz (o peixe cujo sabor mais se assemelha à lagosta), ao cherne ou pargo; a todos estes sabores e aromas acresce a possibilidade de sermos nós próprios a ter o prazer de por algumas horas nos tornarmos pescadores destas verdadeiras iguarias.
A ilha do Pico oferece ainda a quem a visita a possibilidade de se afoitar mar adentro, pelo canal que separa esta ilha da ilha do Faial e que Vitorino Nemésio tornou famoso no romance Mau Tempo no Canal, tomar um bom banho em pleno Oceano Atlântico com aguas a 23º e avistar não a grande distância a ilha de S. Jorge.
Se o amigo leitor ainda tiver energia e tempo poderá dar um salto a esta ilha e na Fajã do Ouvidor poderá degustar as amêijoas do Santo Cristo no Restaurante «O Amílcar» e que têm a reputação de serem as melhores do mundo, acompanhadas por um branco da ilha Graciosa – o Pedras Brancas – que pela companhia e simpatia do lugar, nada fica a dever aos seus primos do Pico.
Afinal em Portugal ainda há montanhas e mares como no romantismo.
«Páginas Interiores» de José Robalo

joserobaload@gmail.com

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