Desta feita a viagem foi curta e demorou curtos minutos. Fomos ao encontro do Padre Carlos Manso Fernandes no Centro Paroquial da freguesia da Póvoa de Santo Adrião, concelho de Odivelas, onde este sabugalense acumula as funções de vigário paroquial com as de capelão no Hospital Amadora-Sintra.

Capeia Arraiana com o Padre Carlos Fernandes MansoCarlos Manso Fernandes nasceu em Aldeia do Bispo há 45 anos. Frequentou a escola primária local até à quarta classe e ingressou de seguida no Seminário Monfortino, em Fátima.
A sua formação continuou no Sul da Itália mais propriamente «em Bari, na região da Apulia, no calcanhar da bota» esclareceu-nos o Padre Carlos que sem se deter prosseguiu «mas depois estive seis anos em Roma onde estudei filosofia e teologia e fui ordenado diácono».
Sempre disponível para a sua ordem monfortina foi ordenado padre e colocado em Castro Verde durante dois anos. Voltou a Fátima para uma nova formação de dois anos e de novo o regresso, agora como pároco, à freguesia alentejana de Castro Verde onde esteve mais oito anos. «Mas não era o único. Há muitos padres naturais de Aldeia do Bispo no Alentejo», acrescenta.
E como é que chegou até aqui à Póvoa de Santo Adrião? «A nossa congregração religiosa tem um Superior que organiza as peças como um xadrez de acordo com as necessidades e nós, como temos espírito missionário, nunca estamos agarrados a um lugar. Assim sendo aqui estou à noite e aos fins-de-semana a ajudar o meu colega, o padre Luís, também monfortino, porque com 35 mil residentes a multi-étnica paróquia da Póvoa de Santo Adrião é muito complexa. Durante a semana sou o capelão do Hospital Amadora-Sintra para onde fui convidado por D. José Alves e onde presto apoio humano e espiritual aos doentes e familiares e aos funcionários», esclarece-nos o clérigo.
Mantém de forma muito intensa a sua relação com as origens e a família. «O meu pai já faleceu mas a minha mãe com 80 anos vive no lar de Aldeia do Bispo onde vou sempre que posso ao longo do ano.»
E aqui deixamos uma raiana confidência do nosso interlocutor: «As férias em Agosto são sagradas e tento marcá-las de forma a apanhar o núcleo central das capeias porque é a melhor forma de reencontrar os amigos.»
Mas os de Aldeia do Bispo são também chamados «lagarteiros»? O padre Carlos tem para isso uma explicação não-oficial sobre as origens e o significado da expressão.
«Há por aí algumas interpretações divergentes como, por exemplo, a da lagarta do pinheiro (o brasão da freguesia tem a rama dos pinhos) contudo, penso que está relacionado com a possibilidade ter existido na zona um santuário pagão dedicado ao lagarto. As aldeias espanholas em redor (Peña Parda, San Martín de Travejo, Eljas e Valverde del Fresno) têm um dialecto e uma simbologia próprios que podem estar relacionados com as romarias ao santuário do lagarto» clarifica o padre Carlos acrescentando a terminar um forte argumento católico: «O padroeiro da paróquia é São Miguel e diz-nos a História que quando havia um santuário pagão muito frequentado a Igreja Católica contrapunha com São Miguel a lutar contra o dragão.»
Capeia Arraiana sabe que os autarcas das referidas localidades espanholas têm vindo a promover a defesa do dialecto «a fala» considerado um património cultural «extremeño» porque este linguajar não é galego mas sim um dialecto de origem galaico-portuguesa.
Foi com muita satisfação que estivemos à fala com um homem moderno, de discurso fácil e ideias arrumadas que, aqui na cidade, nos ajuda a sentirmo-nos mais perto das nossas origens e das nossas terras.
Bem-haja padre Carlos.
jcl