Quando se entra numa idade avançada, tendemos ao esquecimento das palavras menos correntes.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalUm dia destes acordei com a ideia de milhafre, mas o despertar foi perturbado, porque milhafre não era palavra que, na minha infância raiana, se dizia. Fiz então um teimoso esforço e, por fim, veio a palavra antiga: milhano, pronunciado m’lhano que assim designávamos os migratórios milhafres.
Ocorreu-me então que as crianças das culturas urbanas, que aprendem a língua portuguesa, mas que não conseguem ver as coisas em concreto, sabem que existe a palavra ovelha, mas muitas nunca terão visto tal coisa… Há quem pense que os melões têm origem no supermercado.
Então ocorreu relembrar, até para ajudar ao Campeonato da Língua Portuguesa, chamar à mesa do banquete uma sublime composição poética, da autoria do erudito professor do século XIX, Pedro Dinis, que foi director da Biblioteca Nacional. Essa composição, intitulada «Vozes dos Animais» encontra-se num livro de textos para uso das Escolas, publicado em 1855. No meu tempo de escolar, ainda sabiamos estes versos de cór. Muito belos e, sobretudo educativos. Por eles aprendemos a distinguir os conceitos de língua e de fala. Todos falamos, mas só a criatura humana dispõe da palavra. Eis o poema, de Pedro Dinis, para decorar:

As vozes dos animais

Palram pêga e papagaio,
E cacareja a galinha;
Os ternos pombos arrulham;
Geme a rola innocentinha.

Muge a vacca; berra o touro;
Grasna a rãa; ruge o leão;
O gato mia; uiva o lobo;
Tambem uiva e ladra o cão.

Relincha e nitre o cavallo;
Os elephantes dão urros;
A timida ovelha bala;
Zurrar é proprio dos burros.

Regouga a sagaz rapoza,
(Brutinho muito matreiro;)
Nos ramos cantam as aves;
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar;
Fazem gorgeios ás vezes,
Ás vezes põem-se a chilrar.

O negro corvo crocita;
Zune o mosquito enfadonho;
A serpente, no deserto,
Solta assobio medonho.

O pardal, damninho aos campos,
Não aprendeu a cantar;
Como os ratos, e as doninhas,
Apenas sabe chiar.

Chia a lebre; grasna o pato;
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libando o succo das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças;
Pia, pia, o pintainho;
Cucurica e canta o gallo;
Late e gane o cachorrinho.

A vitellinha dá berros;
O cordeirinho, balidos;
O macaquinho dá guinchos;
A criancinha, vagidos.

A falla foi dada ao homem,
Rei dos outros animaes:
Nos versos lidos acima,
Se encontram, em pobre rima,
As vozes dos principaes.

«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes
pinharandagomes@gmail.com