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Há abismos que as chuvas de abril e maio não atestaram nem o sol da Primavera consegue aclarar quomodo são cavados entre a realidade e o desejável.

Há, de facto, abismos que se abrem entre o que se ouve, entre o que nos explicam nas televisões, rádios ou jornais e a vida que, paralelamente, vivemos.
Não há, então, um só abismo. Há vários… Há a abismal ousadia de dizer (alguns dos que, tranquilamente, dizem) que estes dias, abismais, ainda não são os piores dias.
E há, claro, um abismo profundo entre os que pensam (sem nada dizerem) e aquilo que alguns imaginam que eles podem, realmente, pensar ou dizer. Poder-se-á, para esses, imaginar maiores desgastes físicos e emocionais?
Eis, assim, um outro abismo feito de angústia e de escassez de esperança. Se eles falassem (os que nada dizem) falariam, certamente, do excesso de angústia e do défice de expectativas.
Entretanto vão-nos dizendo (alguns dos que dizem) que sim, que nos entendem e que nos escutam. Mas o que eles dizem entender não é o que lhes é pedido. O que se lhes pede, o que se lhes exige são novos dias para quem, há muito, espera um novo dia. Há, aqui, portanto, mais um abismo entre o que é pedido e o que é concedido.
Há, ainda, quem diga que não, que não nos entende, que não consegue perceber o que nos aflige, que não se pode ceder e que, muitas das queixas são fitas e, até, podem ser chantagens. Mas a maioria dos queixosos pensam como quase todos embora, sim, seja verdade que há um quase que falta ao todo e esse quase pareça concordar com quem fala de fitas ou de chantagens.
Eis, então, exposto, um outro abismo. Este, não entre mandantes e mandados, mas entre nós e nós. Entre o quase que falta ao todo e os que temem um fim indigente. Entre os aflitos e os que chamam aos aflitos fiteiros ou chantagistas. Entre os tementes e os que, prefasiando alguns dos que mandam, falam de oportunismos.
Ora, definitivamente, não. Não é o ritmo nem o tom das conversas (dos que dizem) que nos convencem, que evitam o desespero que nos desconcerta, que nos isentam do que nos deprime, que silenciam o que nos atordoa, que nos aplanam abismos.
Ainda assim, talvez quem manda deva reflectir. É que há ainda uma outra espécie de abismo. O abismo aberto entre o comportamento de quem ordena e a reacção daqueles de quem se espera que obedeçam. Quem manda nem sempre demonstra muita cultura democrática, sobretudo quando tenta calar (apesar das angustias e dos défices de expectativas) manifestações de desagrado com intimidações exageradas.
Esse é, afinal, o mais perigoso dos abismos. É o abismo fundeado na degradação da democracia. E, claro, assim sim, poder-se-á caminhar para dias ainda mais difíceis se não for aberta a possibilidade de ouvir os argumentos de quem interpela, daqueles que, no fundo, também têm o direito de dizer e, até, de anular, de aplanar abismos.
Há, pois, quem revele desprezo e insensibilidade suficientes para fazer desejar séria avaliação independentemente da ideia que se tenha do conceito de razoabilidade.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Têm sido risonhas as madrugadas e soalheiras as manhãs. As tardes, velozes e secas, têm cruzado um ano fazedor de história em matéria de falta de chuva. Os serviços meteorológicos têm insistido na necessidade de recuar, profundamente, no tempo e na história das medições para nos garantir que, um ano assim, só há mais de oitenta anos.
A meteorologia estuda, evidentemente, a orientação do vento, a qualidade do ar, a força e a frequência de eventuais tempestades. Compara a escassez de humidade com chuvas diluvianas e conclui que, neste ano, é quase certa a continuação da seca.
Uma sondagem recentemente divulgada confirma que mais de trinta por cento das conversas têm começado pelo assunto do tempo. Eis, portanto, a prova de que a seca tem sido motivo de aflição tal como têm sido aflitivas outras adversidades (porventura económicas).
Os velhos do interior raiano, esses eternos e verdadeiros conhecedores do tempo, observam exaustivamente as centenas de sinais que indicam no horizonte a eventual presença ou ausência de chuva. Consideram tais indícios pequenos tesouros, pormenores de luxo, que constituem base de referência para as suas previsões. Têm concluído que a seca vai continuar.
Pouco antes da minha quase diária volta do fim de tarde, ofereceu-se-me um horizonte dilatado pelas alturas. Também eu me baseio no que tenho bebido da sabedoria popular, decalcada de deliciosas histórias e de algumas vivências de infância em manhãs e tardes que, ora passadas, se me representam na memória. Também eu tento interpretar sinais, ler futuros de chuvas, saber dos calores ou dos frescos, analisar húmidos detalhes. Também eu tento tornar útil o meu conhecimento. Concluo (verdade provada) que este é um ano mau, até no tempo!
Ora, se as preocupações já sobejavam, junta-se-lhes, então, um tempo de amarga secura.
Hoje, tarde de terça, dia de março quente com o dialho no ventre, olho o horizonte e só as palavras simples me motivam. A simplicidade ajuda, claro, seja qual for a matéria, seja qual for o tema, seja qual for a luta.
Constato, portanto, a realidade da vida e (re)olhando o horizonte, ausente de chuva e prematuramente primaveril, reconheço a dureza da seca e a dureza da vida, tantas vezes um quase prematuro inferno!
Mas não, nem tudo pode ser mau. A Primavera está no seu início. Por coincidência (feliz) cruzou-se, recentemente, com o dia nacional da poesia , 21 de março. Ora, a poesia é síntese do real e pode ser síntese do tempo. Limpa a realidade de pequenez e de imbecilidade. Não será, portanto, de admirar que a poesia melhore o tempo. A sua força é imensurável! Florbela Espanca esclarece que a poesia faz os homens maiores do que os homens.
Então que o ar poético da Primavera, ainda que sem chuva e sem muitas nem difíceis palavras (essas poderão soar-me a lugar comum) seja uma espécie de cura. Que nos tranquilize. Que nos componha um pouco a vida.
Valha-nos, ao menos, o ar poético primaveril.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Na sua extensão raiana o Interior pontua-se com pequenos povoados, sóbrios e graníticos, que sobem os montes e decoram os vales. Pouquíssimos habitantes ocupam, ainda, esta faixa cuja população mingua velozmente neste enigmático início de século. Trata-se, no entanto, de gente que armazena na memória saberes e sabores infindáveis.
Falo de pessoas e sítios de encanto. Lugares onde a história deixou marcas e onde as gentes (de boa fé) amalgamam história e lendas.
Mas, nestes lugares de que falo, vivem-se, em cada presente, tempos etiquetados com ausências. Apagam-se, em cada dia, hábitos e tradições. Têm vindo a esmorecer os seus mais carismáticos ambientes e contextos. Urge, portanto, salvar o que, ainda, for possível.
Esta zona, vizinha de Espanha, é terra de invernos excessivos e verões escaldantes. Ora, tais contrastantes evidências, condicionam e sugerem alimentação a contento.
Por outro lado, o moldar da história tem dependido (consideravelmente) da alimentação e, esta, tem vindo a adaptar-se a condicionalismos históricos vencendo dificuldades e diminuindo desigualdades. Eis, portanto, onde me parece morar a razão pela qual a criatividade tem progredido no ensejo de superar carências e limitações.
Aceite-se, então, a evidência de que a utilização da tradição alimentar pode gerar dinâmicas e, eventualmente, (re)constituir recursos regionais ou locais.
Claro que é possível lançar interesses e, até, curiosidades susceptíveis de constituir fortes motivações para quem visite ou pretenda visitar.
Também não escasseiam enormes paixões que intimam os naturais a regressar definitiva ou temporariamente. Só não sobeja , por enquanto, quem arrisque aproveitar tradições (seiva deste povo) para as difundir, tornando-as rentáveis. Refiro-me, concretamente, a potencialidades gastronómicas, capazes de constituir motivação de visita ou regresso sendo certo que há sabores só possíveis de comprovar em contextos e lugares próprios.
São, portanto, reais os desafios.
Aqui trago, hoje, servindo de exemplo, a «morcela doce».
Em toda a zona jarmelista os sentidos podem ainda abrir-se para o sabor (já algo suspenso) desta morcela especial. Sabor que me surge, a mim, tão natural como o frio do inverno ou tão doce como o quente calor da lareira, companheira perene das noites inverniças.
Poder-se-á, então, incumbir a “morcela doce” de alguma missão mais importante?
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Não, não nos foi perguntado. E, em qualquer caso, ser-nos-ia escusada a resposta. Forneceram-nos, sem facultarem hipótese diferente, as orientações do que usam chamar «Troika». Regras de sabor amargo. Ordens duras, muito duras de roer.

Vão-nos prometendo para «depois» a suavidade dos mercados. Para um «depois» vago e abstracto. Mas, dos mercados viemos nós…
Dizem-nos (aos que vivemos do nosso trabalho) que abusámos, que fizemos gastos supérfluos, que exagerámos em festas e festanças, que deveremos trabalhar e poupar, que teremos, agora, de expiar. Só expurgados poderemos voltar ao paraíso, ao tal paraíso perdido, também chamado «depois». Será, portanto, obrigação, nossa sermos duros, fortes e resistentes, sem sombra de pieguices.
É evidente que nos tratam assim por empatia, porque não suportam ver-nos mal, porque não nos abandonariam, porque nunca deixariam o navio na hora do naufrágio. Informam-nos de que o benefício é nosso e os custos e os prejuízos são deles. Altruísmo puro, portanto!
Então, não! Não se deve pedir em demasia a quem decide por nós, a quem aplica ou indica políticas em nosso favor, políticas com impacto direto nas nossas vidas. Pelo contrário, será de lhes pedir que não se esforcem tanto.
Ora, eu, sou um dos tais cidadãos (vulgares) responsáveis pela crise, que gastei demais, que fiz festas e festanças e que não conheço soluções. Por isso (sei bem) deveria estar calado. Não deveria questionar o altruísmo dos eleitos. Mas, enfim… são só duas perguntitas que me vêm remoendo!
Então e os ordenados de milhares? Bem sei que são, só, para alguns, para os melhores, para os excepcionais. Mas, mesmo assim…
E as reformas em triplicado? E os que se reformam com meia dúzia de anos? Que diabo? É que a diferença ainda é grande! O cidadão (vulgar), sim, o que provocou a crise, o que ganhou e gastou demais, esse, deverá descontar a vida inteira ou, talvez, morrer a trabalhar.
Que não se peça, pois, em demasia. Nada de incómodos excessivos, claro. Mas, ainda assim, se me fosse permitido, sempre apresentaria uma simplíssima sugestão: que todos tivessem um só emprego e uma só reforma, que todos se reformassem com o mesmo número de anos de trabalho e que os melhores não ultrapassassem o tripulo dos ordenados médios.
Sim. Pequeníssimas coisas que até um cidadão (vulgar) se atreve a sugerir. Nem precisaríamos, sequer, de excessos de moralidade mas, apenas, de alguma solidariedade. Ou não?
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Na sua dança namoradeira ao redor do Sol, a Terra rodopia fascinada por luz e energia. Nesse incessante movimento vai captando forças que as nuvens reflectem e a atmosfera amortece. Portanto, nem toda a energia emitida pelo sol, inflecte na superfície terrestre. Só parte dela se disponibiliza perante a inteligência humana sob forma de luz (visível ou não visível).

O homem, único habitante pensante do nosso planeta, decidiu apelidar de «energia solar» toda essa força oriunda do sol, passível de ser transformada noutras energias como a eléctrica ou a mecânica.
Também as plantas, no processo fotossíntese, (realizado por seres vivos clorofilados) obtêm proveitos da energia solar. A fotossíntese das plantas verdes converte a energia solar em energia química, que produz alimentos e madeira da qual hão-de derivar combustíveis fósseis no seguimento de um circuito que poderemos chamar perfeito.
A radiação sol aliada à energia eólica e às ondas do mar, responsabilizam-se por grande parte da energia renovável disponível à face da terra.
Os raios solares perfuram e repassam a atmosfera, vão ao encontro dos oceanos fazendo aumentar, nesse embate, a temperatura das águas. O ar quente há-de conter a água evaporada que subirá, provocando a circulação e transferência de energia calorífica na atmosfera. Quando o ar atingir uma altitude elevada, a temperatura baixará e o vapor de água condensar-se-á e formará nuvens, que provocarão precipitação fazendo regressar a água à Terra completando, assim, mais um harmonioso ciclo.
O calor da condensação da água aumenta e transfere energias criando fenómenos atmosféricos como o vento.
É evidente que a fotossíntese inicia grande parte das cadeias alimentares na Terra. Sem ela, animais e outros seres não persistiriam visto que a base da sua alimentação é substância orgânica oferecida pelas plantas verdes. Assim se verifica novo circuito que se encaixa e harmoniza no universo onde, milagrosamente, encontros, circuitos e ciclos energéticos se evidenciam perfeitos e determinantes.
Contudo, apenas uma pequena parte da energia solar disponível acaba por ser utilizada.
Então, que o engenho do homem invente novas e aperfeiçoadas técnicas e que a mudança de mentalidades se alie á criatividade proporcionando mais e melhores utilizações de energia solar porque, assim, a humanidade só poderá ganhar.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Sentei-me silencioso. Aproximei-me de um rádio com a minha idade. Supus que ele me pudesse oferecer recordações. Precisava de alimentar a alma. Mas o velho rádio não colaborou. Propunha-se emitir músicas para além das que eu pretendia e, assim sendo, no preciso instante da sintonização, carreguei no off. Definitivamente, não encontrava o que procurava.

Olhei, então, pela janela quiçá buscando compensação exterior. A caixilharia substituída recortava a paisagem. Os caixilhos eram novos mas o formato da janela era antigo e os vidros eram muitos e pequenos. A janela, propriamente dita, essa, era muito mais velha que eu e do que o rádio que tinha a minha idade.
Vi, então. Vi montes de pedra e de verdura e vi outros montes esbranquiçados com a lonjura. Mais próximo vi campos. Não estranhei. Apenas estremeci perante a constatação, evidente, da mudança do mundo rural.
Só podia, então, meditar. Naveguei em pensamentos ainda que sem música de fundo.
E sim, ainda existia mundo! Mas mundo rural? Não tão rural quanto já o conheci. Seria, ao menos, agrícola? Nem por isso, concluí.
Já quase se extinguiram as imagens, já quase se calaram os sons, já se desvaneceram os personagens.
O silêncio apagou a sonorização desse mundo. Refiro-me aos sons (e até imagens) dos amanhos da terra, ao «traz traz» da enxada, ao batucar do malho, ao som surdo da marreta, às vozes de comando, às ordens dos lavradores (vira laranja, põe-te ao rego castanha, toma aqui galante). Perderam-se esses sons!
Ter-se-á perdido, definitivamente, esse vocabulário?
E os sons dos rebanhos e das cabradas, o ladrar dos cães? O que foi feito desses sonoros ambientes? Por onde andarão os seus atores?
Certo é que também não ouço sons modernos. Não escuto os sussurros dos tractores agrícolas, o «toc toc» dos motores de rega. Esvaíram-se águas, terras e máquinas?
Por onde andarão os sons das perdizes, dos corvos, dos mochos, das corujas, o chamar nocturno das raposas com cio? Onde foi que se recolheram esses sons?
Mantêm-se, sim, os sons eternos da natureza, os sons dos cerros, dos montes, os sons da chuva e do vento, o som da água que, mesmo sendo menos, ainda salta das fragas. Mantêm-se e revelam-se-nos as veredas, os lugares para além do que estamos perdendo lá onde irrompe um rural que já não é igual.
Mas, por mim, desejo ardentemente, que algum dia, surja novo mapeamento. Quero crer, claro, que poderemos voltar a falar de rural e de um agrícola (diferente) porque ainda não é hoje o fim do mundo.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Perdoe-me, o estimado leitor, esta conversa tão ao correr da pena mas deixe-me dizer-lhe que a felicidade pode advir de um «quase nada».

Direi, em consequência, que, apesar da vida que nos consome, não é bom extinguir rasgos de esperança. Preferível será, aproveitar o simples e o natural como produtores de felicidade.
Pensando bem encontraremos prerrogativas. Temos, de fato, privilégios incríveis, susceptíveis de motivar felicidade pura e simples.
Quando, no mundo que habitamos, damos com quem seja feliz sem motivo bem visível costuma comentar-se: «está feliz por ter nascido».
Ora, ainda que assim não pareça, é mesmo isso que faz falta. É essa felicidade simples, sem motivos (aparentes), que promove a vida, alimentando-a em sucessões de meros momentos felizes.
Vendo bem, ter nascido e permanecer vivo é já uma enorme sorte por entre outras hipóteses. É, já, um enorme privilégio desfrutar o universo, o céu e a sua imensidão espacial, as estrelas, a terra, as montanhas e as planícies, o mar e toda esta harmonia inalterável. Nada mais belo que ver o sol renovar-se em cada dia, observar os campos, as flores, os animais, sentir a vida, pressentir os sons e odores da natureza, escutar o vento, as aves e as chuvas.
Será sensato esquecer tudo isto em favor de grandes ambições, de ambições desmedidas que, bem vistas as coisas, não passam de supérfluas?
Valerá, então, a pena parar para escutar, parar para olhar e, sim, aproveitar.
Desfrutemos antes que tudo se apague em silêncio porque mais depressa do que estamos preparados cessará a oportunidade de estarmos vivos. E, depois… findaremos. Ninguém mais se lembrará de nós. Ninguém se recordará que existimos e, ainda que alguns se recordem, esses, desaparecerão também. Assim, desapareceremos nós definitivamente.
Então, o mais importante, o verdadeiramente mais importante passará com extrema rapidez. Passará de forma incerta e inexplicável.
De resto, tudo na vida, mas mesmo tudo, será rápido e sem consequências. A única consequência importante é a própria vida, a vida que conseguirmos viver.
Não se pode, portanto desperdiçar qualquer pequena/grande felicidade nem deixar de utilizar, em qualquer circunstância, a sorte de viver.
Assim cumpriremos, com o universo, o dever (evidente) que ele nos merece, o dever de gratidão.
E hoje, estimado leitor, a minha crónica é, muito simplesmente, assim.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Não temos, no Interior Raiano, a grande cidade nem a cómoda diversidade das suas ofertas. Temos, sim, o primor da natureza.

As encostas vestem-se de arvoredos ou ampolam-se de granitos cinzentos que a água chovediça lava, o vento seca e o sol escalda.
De uma qualquer rocha ou da mais vulgar húmida junqueira pode nascer e crescer um regato que escorregará em declives até descansar numa qualquer baixa. Regará hortas e pastos e ajudá-los-á a enverdecer. Alguns desses ribeiros engrossarão e transformar-se-ão em riachos seguindo em linhas de água azul, entre fragas. Alguns crescerão mais ainda e serão rios que, em percursos mais alongados, se lançarão sem medos nem sobressaltos, ultrapassando abismos e dormindo, apenas, em curtas partes do leito.
Por toda a parte há giestas e tojos que se ondulam ao vento, abrindo passagens ao pouco gado, sobrante dos antigos e compactos rebanhos.
As nuvens repassam-se de sol e luz, rendilhando os céus em cardumes brancos de pedaços de algodão que, quando escurecem, se desfazem em água.
O nosso horizonte é cercado por agudas escarpas que, no limite da vista, se afundam nos céus.
Temos ravinas profundas de onde se não enxerga nem mar nem terra, apenas se avistam pequenas partes do firmamento. Temos alturas vertiginosas que fazem crescer horizontes.
As Primaveras são floridas de mil flores com o calendário dos perfumes sublinhado nas maias do mês de Maio. A sobreposição amarelada das maias antecipa o cheiro azul e inebriante do rosmaninho São Joanino em cada mês de Junho.
Os Verões são quentes, carentes de humidades com dias torrados de sol e noites clareadas de lua.
Os Invernos são axadrezados de neve e gelo, com dias escuros e noites pretas.
Os Outonos são maioritariamente castanhos mas vestem-se, também, de outras cores igualmente belas, igualmente sóbrias.
Temos paisagens em tons plurais que nos explicam, em permanência, o verdadeiro significado do dito de Torga: «Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo».
Não temos, portanto, a grande cidade mas temos este aconchego em que os olhos se demoram, e os sentidos se reflectem. Temos a natureza que nos infringe amor pela terra que nos deu vida, terra que transportamos no âmago, que nos inspira contos e lendas e que nos garante enormes paixões. Fica-nos o coração pequenino diante de cenários de flores e ervas, de árvores e arbustos, de rochas e campos, de altos e baixos, de calores e frios e, secretamente, desejamos que tudo assim seja, que tudo assim se mantenha.
Aperta-se-nos o coração nas despedidas porque, muitos de nós, somos de viagens longas e de ausências demoradas apesar de nunca menosprezarmos o regresso.
Se partimos é como se deixássemos o campo em pousio, para virmos mais tarde, transbordando de saudade, amanhá-lo, como quem não queira perder o jeito à enxada.
E não conto, claro, nada de novo, nada que o estimado leitor não saiba ou conheça. Tenho apenas o prazer de contar.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Há pouco, muito pouco, há escassos dias, assistimos aos minutos iniciais de um novo ano. Será (assim julgo) um ano importante que precisamos e desejamos vencer.

Ora, no ano findo, a crise, apesar de avisada, chegou e trouxe perplexidade, como se chegasse de surpresa, tal foi a sua magnitude. Houve quem não quisesse acreditar nela mas, como em tudo na vida, ignorar não é evitar e ela aí está, implantada e recheada de angústias.
Vencer esta crise é como vencer um campeonato do mundo de futebol, tão grande e tão geral é a sua amplitude assim como é enorme a ansiedade instalada.
É importante entrar no ano novo com o pé direito e julgo que é geral a vontade de ver com atenção os momentos iniciais do jogo. É como se, logo ali, tudo se decidisse.
Assim meditando, segui a linha do rio recordando passados recentes (apenas de aparência sólida) que se esboroaram num futuro repentino e diferente, quase oposto. Fraquíssima consistência mundana!
Tudo me parece, agora, conversa frágil. Tudo me lembra histórias de crianças e tudo é como se eu próprio tivesse falado com os autores ficcionistas.
Valha-nos o rio, pensei. O rio é diferente, é duradouro e persistente, ou melhor, é eterno.
Em tempo de superação de crise hei-de levar como exemplo a imagem do rio nos olhos, o seu correr límpido, o seu seguir perseverante, as suas sóbrias margens, as suas nuvens e o seu sol. Levarei também os seus sons nos ouvidos até que o ano novo se faça velho, até ao preciso momento de uma nova passagem de ano. E hei-de ir como quem diga um poema ao vento, ao vento que beija e ondula a linha de água. Esperarei, portanto.
A crise tem, claro, todo o aspecto de ser marcante. O que dela traduzimos não é tudo, mas é muito. Esperemos que em algum tempo ela toque corações. É que o mundo, cada vez mais, se divide em sacrificados e instalados. Grande divisão, esta, do mundo.
Para o ano, quereria que a minha pena aqui voltasse, fulgurante, no registo de histórias mais felizes e com alguma poesia porque, para além do resto, um ano duro será duro e triste se ficar isento de raios de poesia.
Peço, então, pouca coisa para este ano que ora começa. Que se possa, ao menos, trabalhar respeitando a ordem estabelecida por leis procedentes. Que nem tudo mude (como as regras a meio do jogo) ao sabor de específicas vontades. Peço ainda uma amenização dos sacrifícios e que estes (quando necessários) sejam lúcidos já que não podem ser irrelevantes e, já agora, que os sacrificados possam ganhar, uma vez por outra, algum jogo decisivo.
Fico-me, finalmente, pelo desejo do melhor ano possível para todos.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Era domingo e a tarde, apressada, esgotava-se deixando-me (curto) tempo para um velho hábito, o de observar.

Ora, é sabido que, para vendavais, não há fins de semana e, apesar do domingo, levantava-se um vento espanhol, forte e tempestuoso fazendo viajar no seu sopro, escassas gotas de chuva que voavam velozes e azuis no ar cinzento magoando os rostos muito mais do que molhavam.
Eu insistia, resistia, no meu posto, no cume da escarpa verificando o Côa bem ao fundo. Virado ao rio vigiava, pelo canto do olho, em ângulo difícil, aferindo distâncias. A pequena aldeia de Mido, de tons amarelados, brancos e vermelhos, trepava a meia encosta denunciando ânsias de subir mais alto. Apesar disso, Mido, não consegue enxergar o rio que, qual cobra cinzenta/brilhante nesta tarde sem sol, furava o frio empurrada por bafos fortes de vento gelado e sob uma ameaça seríssima de chuva.
Se, nesse momento, eu tivesse uma flor, teria descido e, tê-la-ia colocado sobre as águas, para amenizar o ar da tempestade, para criar uma imagem mágica que lhe pudesse resistir. Pedir-lhe-ia, ao rio, que protegesse a flor, que a fizesse sobreviver ao vento, à chuva e à corrente, que a levasse e que a transformasse num símbolo andante posterior ao mau tempo provando que a bonança regressará sempre.
Mas não, não era época de campos com flores e era tarde de vendaval que acabou por envolver os montes, entortando árvores, arrancando folhas, levando-as, varrendo-as.
O som das folhas caídas e arrastadas parecia criar uma canção livre, liberta das grades do tempo e, assim, me lembrei das cantigas de infância que, no Inverno, eram cantadas ao calor da lareira. Eram diferentes dessas outras cantigas de infância, as da Primavera, cantadas no exterior já quente, quando as flores pintavam os prados, sobre ou entre as ervas. Nessa altura estaria o rio tão próximo do meu coração quanto ainda está hoje!
Mas voltaria, agora, a provar o vendaval! Voltei a ver os pastos altos, os cabelos de erva que, diante dos meus olhos, voltaram a provocar-me espanto. Entendi as pancadas fortes do vento como pancadas de Molière.
Estava perante a paisagem austera do Côa, sob temporal, com árvores a vergarem-se e pastos a ondular. Era uma paisagem dinâmica por entre rochas inertes… Senti-me, de novo, espectador de um palco, de um teatro que já vi milhentas vezes. Não vi flores nem ouvi palmas mas revi retalhos da minha vivência, numa paisagem digna de televisão ou de cinema.
Por outro lado, era como entregar ao vento preocupações ou sofrimentos. Era como descarregá-los na visão de um filme, e depois de os largar, voltar a sorrir distraindo-me com tudo o que estava em meu redor. Porque ela, a paisagem austera do Côa, apesar da tempestade tinha essa arte, a de me fazer festas tranquilizadoras.
E o vendaval apenas ensaiava o seu papel, fazendo mergulhar tudo num tremendo temporal animado pelos sons e abanos do vento e pelas ameaças da chuva mas, tudo, resistiria como se resistisse a um cerco.
E a Primavera haverá de chegar como quem põe flores sobre a mesa!
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
É um impulso incontido! A ruralidade chama-me, acaricia-me a alma, devolve-me os sítios e as pessoas. Impõe-me o regresso…

Em retornos sucessivos encontrei, muitas vezes, o meu velho amigo Matias da Silva. Desapareceu quando contava noventa e tal e, com ele, partiram pedaços importantes da minha vivência rural.
Era um velho guardador de memórias e um fascinante contador de histórias com quem eu tinha o hábito e o gosto de conversar. Ele não se fechava o dia todo a sacudir o pó dos seus velhos contos. Antes pelo contrário. O Silva gostava de sair e de expor «in lóco» as suas teorias.
Guiava-me, assim, com frequência e, ambos, fazíamos percursos de memória rendilhada. Seguíamos ruas e quelhas indagando carismas e segredos. Vencíamos veredas, contornávamos granitos e interpretávamos sombras. Ele foi o que, modernamente, poderíamos chamar «o meu GPS». Com a sua voz calma e rouca guiava-me os passos sem dar demasiada importância à cor dos dias. Os dois rompíamos nevoeiros ou claridades para desvendar os mais ínfimos lugares. Falava da história dos sítios e do significado das pedras. Explicava o anglo dos caminhos e adivinhava o sol e a chuva!
Com ele continuo, ainda hoje, a sair em pensamento! Relembro-lhe as sugestões, conselhos e pareceres.
Voltei, ontem, a perder-me, acompanhado pela sua recordação. Repeti uma das visitas como se ele me guiasse, parando em cada esquina. Abriu-se-me, de novo, a boca de espanto, mediante recordações antigas que, paradoxalmente, me parecerão eternamente novas.
Regressei ao Largo do Cruzeiro onde se situava a sua tasca agora encerrada, não só por défice de clientes mas também por falta de tasqueiro. Revisitei o recanto do Largo onde os caldeireiros gastavam dias e semanas martelando latas e chumbando os fundos aos caldeiros. Subi depois. Voltei a subir a única rua da aldeia e, como se sonhasse, voltei a pedir opinião ao Silva. Puxou-me, ele, de novo, pela rua esconsa até à subida para a velha capela, testemunha perene desde os primórdios da nacionalidade.
Desci, por fim, a caminho da minha velha casa reconstruída sobre mais de centena e meia de anos, no início da única rua que, engordando bastante, permite, ao meio, o tal Largo do Cruzeiro. Relembrei vinhos e bebedores, tremoços e comedores, aguardentes, obreiros de alambiques, sítios e épocas de destilação.
Fazia-se a aguardente no «Cabanal das Aguardentes». Incendiavam-se as noites com enormes fogueiras e as gargantas com bagaços quentes. Queimavam-se engaços. Aproveitavam-se as brasas (colossais) para assar chouriças, carnes e farinheiros.
Relembrei sabores e odores e recordei as histórias picantes do velho tasqueiro, porque ele sabia muitas e das boas!
Tal como noutros tempos ouvi o som corrido da água do audível ribeiro. E veio-me á ideia que o Silva foi, ele próprio, uma fonte viva. A sua recordação ficará (no meu sempre) à bica dos lugares que, por cá, têm história.
Aqui o trago hoje, ao meu velho amigo Matias da Silva, como embaixador de histórias e sabedorias. E, na figura dele, pretendo homenagear, também, todos os homens e mulheres da minha ruralidade.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Cultivo, desde garoto, este gosto, aparentemente alheado, de ver cair a chuva, de a acompanhar no seu encontro com o mundo, com as casas, as árvores e os solos. Gosto de lhes seguir o caminho por valetas e regueiros, de assistir à formação dos charcos, de observar o escorregar das gotas em desenhos rendilhados nos vidros das janelas.

Vejo-me, frequentemente, espreitando a chuva, insinuando, perante mim próprio, que a não quero pelo incómodo mas, desejando-a num desejo íntimo, na esperança de um secreto prazer.
Aqui, no nosso Interior, somos da chuva que molha e encharca, somos do frio que a enrijece, que a solidifica, que a branqueia, somos do vento que a empurra e eu sou dos que, secretamente, amam a chuva!
Gosto de sair à rua, ainda que chova, e corro como se a chuva corresse atrás de mim. Ainda que me molhe o corpo e este me estremeça em arrepios de frio e humidade confesso que, mesmo assim, a chuva não me desgosta. Se for muita procuro abrigo como quem procura refugio. Depois de homiziado, observo e vaticino quantidades, oportunidades e friezas.
Entrando em casa gosto de lançar olhares pela janela e de iniciar o prazer de uma contemplação superficial mas demorada. São olhares que me instruem o espírito. Não me importo, portanto, de demorar os meus olhos pelas imagens da chuva tão sedutoras e tão naturais. E, se for final de tarde, se o início da noite se mantiver tempestuoso posso não ousar sair para enfrentar ventos ou tempestades e optar por apenas escutar, por apenas observar. Gosto de apreciar discreta mas interessadamente a chuva. Se a escuridão da noite me impedir de a ver, ouvir-lhe-ei o cantar tamborilado e escutar-lhe-ei o correr escorregadio. Pressentir-lhe-ei o desejo de me visitar tentando entrar pelo telhado ou insistindo contra a janela transparente e impeditiva.
Assim me fala a chuva, lá de fora, a mim que já estou de dentro!
É nessa altura que ela me surge mais enigmática. Tento, então, adivinhar-lhe os locais de longínqua origem, os sítios onde se formaram as nuvens. Imagino o final dos regatos, o desaguar das ribeiras, o chegar das águas aos grandes rios que enchem o infindável mar.
Para mim o mar é feito de muita chuva e sempre será infinito, sempre será longínquo ainda que alguma vez esteja próximo.
Mesmo que visto e revisto o mar será sempre da minha imaginação e sempre será misterioso.
E é, lá, no mar, que a chuva descansa!
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Ninguém nos retirará, neste Interior raiano, os montes, e os vales, a beleza austera dos rochedos, a verdura dos campos, o porte frondoso dos carvalhos, a altura esguia dos pinheiros, os amarelos das maias primaveris, os tons torrados dos tojos e dos prados no verão nem a alvura da geada e da neve no inverno. Ninguém nos roubará os lugares onde as flores nunca perderão o sentido nem nunca recusarão o seu perfume.

Ninguém mutilará, a este Interior, o seu carisma fronteiriço.
Ninguém suspenderá ás suas gentes o seu carácter. Sempre a sua vontade será tão sólida quanto a dureza granítica. A gente do Interior será sempre de feitio volátil e de macieza no tratamento.
Persistirá, portanto, o Interior, como objecto de recordações e inspirador de novos sonhos. Ninguém lhe mudará a alma!
Ainda assim hão-de concretizar-lhe a desertificação!!!
Duvido que o tempo ou o assunto se prestem a metáforas ou trocadilhos e desconheço quais as ponderosas razões que nos têm empurrado, para um profundo esquecimento. Quiçá as mesmas razões que nos mergulharão nas amarguras do (já) certíssimo esvaziamento.
O que na realidade consta é que, sem explicação que verdadeiramente eu entenda, a lei ditará que as freguesias com menos de quinhentos habitantes sejam varridas do mapa. Sobre elas atem-se, portanto, a cor vermelha do lápis que as quer abater com uma cruz desertificadora, ao abrigo de duvidosas razões de poupança.
Apesar disso nunca findaram (nem se sabe se findarão) amáveis tiradas em dialécticas proferidas por políticos que, ao invés de outros tempos e de outras vontades (dos reis povoadores, por exemplo) pactuam com a implementação deste pavoroso despovoamento.
Sobressai, portanto, o rigor dos números e a pretensa exactidão das réguas e dos esquadros. Nada que impeça o desequilíbrio baseado em critérios que conduzirão a um novíssimo rosário marcado pelo crescer da desertificação.
Por outro lado, presume-se que, num futuro próximo, quarenta por cento da população portuguesa se fixe na região da Grande Lisboa. Restará, depois, um país desequilibrado, desigual, vergado a razões economicistas (justificadas?) Surgirão áreas nacionais desertificadas, sem deserto. Mas apesar da ausência triste das pessoas nunca o nosso Interior será deserto!
Por aqui, persistirá beleza, embora ríspida e muito própria. Ficarão potencialidades por explorar por falta de imaginação de quem prometeu tê-la, por facilitismo, por omissão, por resignação. Mas não… não haverá lápis que consiga banir o Interior. Apenas se lhe escurecerá a alma, apenas se lhe subtrairá gente, apenas se lhe aumentará o abandono!
Resta-nos a esperança de que um dia mude o punho e mude o lápis. Esperemos, então, que surjam outras vontades, outros desenhos, outros desenhadores e lápis de outras cores. Entretanto o Interior por cá ficará eternamente.
E, juro, nunca faltará quem acredite no impossível!!
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Tenho a ideia de que, nós, continuamos a viver nos sítios onde fomos felizes e eu, tive uma infância feliz e rural.

Gozei, claro, ambientes calmos, pacíficos e pueris apesar do irrequietismo inerente á condição de criança.
As mulheres e os homens desses tempos, os velhos de hoje, transportavam e transportam, ainda, nos olhos a presença de uma acalmia total, reflectida em olhares maduros e recheada de sabedorias antigas e profundas.
Faço, então, questão de voltar para habitar as minhas memórias. Por aí amenizo as horas mais ásperas do tempo presente. Relembro histórias e recordo gente amiga e antiga, ferida pelo frio da existência e queimada pelo fogo das vivências mais austeras. Gente que me parece, agora, em despedida.
Preciso, portanto (e só) de fechar as pálpebras para habitar memórias, para relembrar episódios, para efabular façanhas ou parar ligar destinos que nem sempre foram cumpridos.
Há quem me diga «lá estás tu a sonhar». É certo que o tom nem sempre é recriminatório. No entanto, alguns me julgarão repetitivo. Porventura outros me acompanharão em lembranças. Encolho, simplesmente, os ombros porque sei que não vale a pena suspirar de enfado. Sonhos são sonhos e não se discutem e quando se sonha o real desce sempre a um plano secundário.
Assim me dispus, hoje, a passear, uma outra vez, pelas ruas da minha memória, reencontrando lugares e recordando proezas de outros tempos.
Sempre gostei de deambular sem predefinir o sentido. Apraz-me fazer incursões pelo âmago da minha aldeia sentindo-lhe os odores, as cores, os sons e os silêncios. Dá-me prazer apreciá-la, por dentro, revisitar-lhe a intimidade, confirmando, presencialmente, o que de mais belo ela pode oferecer, quer seja a estreiteza das ruas, o velho traço do campanário, o cantar do velho fontanário ou a antiguidade das edificações.
Foi neste passeio de hoje que revi, uma árvore, lá ao fundo de algumas décadas, incluída numa fileira de imagens onde um dia, um denso e irrequieto grupo de garotos, fugidos da atenção da professora a treparam, a despojaram de muitas folhas e a mutilaram de alguns ramos numa agressividade infantil pouco compreensível aos adultos daquele e deste tempo. Ficou quase moribunda sem que, hoje, por mais que me esforce, eu consiga perceber a barbaridade de tais atitudes. Resistiu, apesar de tudo. Agora é uma árvore forte, alta e adulta, dona de um quintal onde se inicia uma ruela, sítio com lugar cativo na minha recordação.
Tive, então, que pedir perdão a essa árvore. Apeteceu-me abraçá-la e beijá-la com meiguice como se, por muito tempo, me houvesse ausentado dela e a ela voltasse, agora, prodigamente. Senti, depois um cómodo conforto quando me apaziguei com ela, num apaziguamento deveras sentimental.
Enquanto isto, dei comigo em cumprimentos a algumas pessoas (duas ou três) que, ocasionalmente, passaram por ali e que já não conseguem corrigir a velhice.
Terminei reconhecendo, uma vez mais, que continuo a sentir-me bem quando desfio memórias, histórias arbitrarias (entre muitas) quiçá um pouco tontas, eventualmente rotineiras mas, ao mesmo tempo, tão simples e naturais como a desta árvore extremamente marcante da minha infância.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Corre um tempo quente que queima o mês de Outubro enquanto este avança e se esgota num Outono com temperaturas de Verão.

Assim, como assim, a vida não pára e colaborar no Capeia Arraiana é, para mim, um enormíssimo prazer. Evidentemente, tal colaboração inscreve-se-me numa obrigação quinzenal que carece de assunto e, se assim é, a observação poderá ajudar!
Olho, então… e olhando, vejo curtas planícies, a que o povo chama baixas. Mas, para além disso, vejo a diversidade dos montes e dou com a Serra, a tal Serra que toca as estrelas. Reparar nela é como olhar para mim próprio, assim a minha existência coincide com a sua presença.
E, claro, há outros montes para além da Estrela. Há o «Crucho» como é, popularmente, conhecido o cume do Monte do Jarmelo. Ele distancia-se um pouco da Serra mas é omnipresente numa paisagem que tenho a felicidade de observar diariamente.
Esbranquiça-se, então, o «Crucho», na distância e envolve-o um nevoeiro pouco denso lembrando fumo branco. No cimo exibe, furando os Céus, um enorme marco geodésico, alto, de mais de sete metros.
Permita-me o estimado leitor que eu compare este marco a um enorme dedo levantado, um dedo maior, um dedo de honra, sempre presente na distância…
«O Crucho» parece desabrir num quase protesto. Parece sublinhar a pretensão de sustentar e até de reavivar novos argumentos. Este enorme dedo que, na realidade, é estático parece ser intensamente manuseado e parece não permitir que a história do Monte seja mindinha.
E se é verdade que apenas um dedo não faz a mão o dedo maior quer, aqui, substituí-la em acenos, num importante chamamento de atenção.
Por estranho que pareça este modo representativo, este dedo, pode dizer que, embora, indo-se os anéis, podem ficar os dedos para novas angariações.
Baila, assim, no meu pensamento a convicção de que, para além das específicas funções que, primordialmente, atribuíram ao marco ele persistirá num chamamento aflito, desmesurado, gritando nas alturas.
Este marco grita de pé entre as ruínas tentando evidenciar vestígios que parecem escapar à mão da história. Ora, se essa mão, por aqui, deixou perder os anéis, acreditem, ainda mantém os dedos.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Detenho-me, num olhar, perante o espaço que, das escarpas da Estrela, se estende e acinzenta para bandas do Sabugal.

Num relance mais curto e mais a leste chega-me o meu Monte, o Monte do Jarmelo.
Aplanam-se, depois, as distâncias até se perderem nas longínquas serranias espanholas. Adivinho, com grau de absoluta certeza, que, a meio caminho, se alonga um vale, o vale do Côa, profundo, abrupto, apertado e quente.
E sei, claro, que por aí se esvaem as águas de um rio. Águas oprimidas pelo aperto e alteza das margens. Águas, poucas, agora que se vão na lentidão estival enquanto isentas de chuvas. O percurso dessas águas ocorrerá, em ambiente oprimido, numa extensão de escassos quilómetros e numa luta constante com as margens, como se fizessem uma incessante procura de liberdade mesmo antes de encontrar a foz.
Neste outro monte, num monte povoado, ergue-se a Guarda, meu ponto de observação, cidade envolta e distraída na agitação da tarde.
Entre o movimento e a extensão dos espaços silenciosos permito-me imaginar paisagens, carentes de verdura nesta época do ano e ponteadas de aflorações umas mais cinzentas que outras.
Entre a cidade e os campos espargem-se aldeias, que não crescem mas minguam e que insinuam vidas a transbordar de tradições e de labutas rurais.
Presumo, essas aldeias, esmorecidas fazendo imagem com casas de granito cinzento ou amarelo por entre outras casas cujos modelos foram importados da Europa. Umas e outras se demarcam no interior de um espaço castanho/avermelhado definido pelo tom dos telhados. São aldeias que se desviam, nos longes, como se fugissem, como se quisessem evitar, o açambarque das cidades.
Ainda pairam algumas nuvens nesta tarde. Lembro-me agora que a névoa chegou de manhã. Ao longo do dia a humidade mais baixa foi-se dissipando e, no céu, foram-se agrupando as nuvens. Formaram grupos espessos, cinzentos, quase negros. Agora, ao final do dia, um leve vento dispersou-as. Parte delas disfarçam-se e expõem-se em figuras pitorescas. Houve nuvens que se alongaram e emagreceram deixando-se repassar por raios de sol fraco, fazendo lembrar pedaços de um enorme manto que se esbranquiça na passagem da luz.
Lá mais além, na altura longínqua da montanha espanhola , parecem juntar-se todas as nuvens num doce enlace entre a Serra e o Céu.
Olhando, assim, vou esquecendo azáfamas e vou entrando no abstracto mundo da imaginação onde me entretenho lendo espaços, decifrando e comparando formas, associando-as a imagens reais ou mesmo a acontecimentos quotidianos.
É este o Céu que me cobre a mim, à Guarda, à raia e à cidade do Sabugal.
Ler os espaços que refiro é como ler livros abertos, livros ilustrados com Céus, casas e paisagens, livros recheados de tradições e de saberes ancestrais.
Tudo se proporciona, portanto, para leituras gostosas. Os espaços estão sempre disponíveis. Basta querer lê-los.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Havia uma colina com um castelo ao cimo e um rio a curvar-se, lentamente, na base da colina, aos pés do castelo. A cidade expunha-se a nascente. Os choupos e os freixos insistiam junto às águas. Os prados e as hortas acastanhavam-se num verde de finais de verão.

Afastava-se do rio um homem de balde na mão, cana de pesca ao ombro. O castelo ficava-lhe a trás. Não era um homem jovem. O chapéu tentava definir-lhe a idade. Era tarde, quase noite e era rua, ou melhor, eram campos. Dir-se-ia que o homem caminhava, cansado, em busca de aconchego.
Traria peixes no balde? assim o insinuava a cana de pesca!
O castelo, lá no alto, com ares de eterno, lembrava passados distantes.
Mas, um pescador sabe o que pesca e nem sempre pesca, só, peixe. Também pesca histórias e sabe, bem, porque razão não se entrega, apenas, à bisca da tarde, na tasca. Vai sem dizer ao que vai e regressa desenhando a silhueta esbatida no esmorecer do dia. Faz tudo isto por razão forte, com alma indevassável. Admite, sem dúvida, outro tipo de convívio, um convívio diferente daquele desgaste lento da reforma. Admite conviver com os peixes, com as águas, com as margens, enfim, com o rio. E, ao regressar, transporta no balde peixes e histórias.
Vem, então, o homem. Abandona a margem e atinge a dobra da avenida, lá, de onde o observo a ele, ao seu rio e ao seu castelo. Quando passa por mim, diz-me como se viesse de cumprir uma missão:
- Boas tardes amigo.
Deliciava-me, eu, nestes pensamentos e perguntei-lhe:
- Então e os peixes abonam?
Respondeu-me:
- Nem por isso… Já não é como era!
Dizendo isto, lançou um olhar longo, extremamente expressivo, englobando razões e espaços.
De facto há gestos assim, equivalentes a palavras valiosas, àquelas palavras poucas, capazes de desencalhar. Há gestos que são mais do que palavras!
O castelo das cinco quinas, no Sabugal, testemunha perene de todos os tempos, firme na sua solidez granítica, dono da sua altura de sempre, olhava-nos a mim e ao homem e penso que, também, me quis integrar neste quadro. A personagem principal era ele, o homem que possuía o poder das palavras poucas, das palavras simples e dos gestos expressivos. Era um pescador do Côa. No balde trazia peixes do rio e, talvez, muitas histórias. Eu, apenas, queria contar!
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Havia ribeiras, sim, como a Pêga ou as Cabras mas, qualquer delas, não poderia ser comparada ao Côa que era um rio grande, arraiano e, todo inteirinho, português.

O Douro e o Tejo eram grandes, sim senhor, mas nasciam em Espanha. O Côa era grande, também, mas nascia em Portugal. Vinha dos lados do Sabugal. Contornava, a uma distância razoável, o Jarmelo e seguia por bandas de Espanha, sempre ao longo da fronteira sem nunca se internacionalizar. Propunha-se engordar o Douro, claro, como se aprendia na escola primária, na cantilena dos rios e afluentes. Mas, Côa e Douro, apenas se abraçariam numa raia mais a norte, nas proximidades de Vila Nova de Foz Côa.
Assumidamente fronteiriço o Côa esgueirava-se, escorregadio, qual cobra gigante e prateada, raia adentro, sinalizando a proximidade da fronteira sem se inibir de interferir nas vidas arraianas!
O Côa não era, portanto, um rio qualquer. Investia-se de missões específicas. Era tido e achado em muitos actos contrabandísticos e empenhava-se regulando-os. Por vezes ajudava os guardas. Outras vezes facilitava contrabandistas.
Nesses tempos, idos, há mais de três décadas, contrabandeava-se de tudo. As raias (portuguesa e espanhola) praticavam um comércio clandestino amalgamado e abrangente que incluía de um pouco de tudo: pão, galhetas, café, cacau, chocolates, carnes, azeites, óleos, alpergatas, botas, panos, enxadas, tabacos e muito, muito mais. De forma legal quase só os rios cruzavam a fronteira!
Aprendi o Côa, em meados dos anos sessenta, mesmo antes de o cantarolar na escola primária. Naquela altura os rios decoravam-se a cantar. Mas, para mim, o Côa nunca foi um rio de cantigas. Sempre foi real, extremamente real. Conheci-o, cruzei-o e molhei-me nele milhentas vezes.
O São Roque, sítio carismático da margem esquerda, associava-se ao rio. Foi e é local de feiras, festas e romarias. Foi praia, palco de brincadeiras, lugar de merendas e convívios. Há lá capela e ponte a ligar as arribas.
Na minha adolescência, por estas bandas, as águas do rio eram completamente isentas de poluições. Sobretudo no Verão, quando paradas e observadas de perto, lembravam espelhos enormes reflectindo não só a frescura do arvoredo marginal mas também as agruras dos montes medianamente afastados.
A minha relação com o rio é da minha idade e, entre nós, coexiste uma empatia crescente que se renovou em cada reencontro. Sobram-me, agora, retratos antigos que me reavivam imagens e recordações.
De quando em vez, faço questão de me pôr a sós com o Côa. Procuro-o como quem procura um velho amigo. Falo-lhe, conto-lhe, pergunto-lhe e escuto-o. Cheiro-lhe os ares, as águas e as margens. Lanço-lhe olhares profundos tentando decifrar-lhe segredos. Às vezes olho-o suavemente deixando que os meus olhos o percorram e se percam pelos sítios mais recônditos. Olhares profundos e olhares suaves acabam por se reencontrar sobre as águas, entre as margens. E, sempre, sempre após momentos da mais perfeita sintonia ambos (eu e o rio) concluímos que a raia só pode ser como é porque é assim o rio Côa.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
O entardecer já pouco demorará. A noite não está longe. Ela virá como se viesse cansada tombando vagarosamente, fazendo crer que tudo ficará sob a penumbra. O sol vai, portanto, desandando, quase de todo, e a tardinha há-de esvair-se.

Sento-me. Fico sentado cá fora, á porta, na normal comodidade de um banco de pedra que corre a parede da casa. Por cima os fios da electricidade prometem-me que a luz não findará.
Mesmo que não quisesse, tinha, agora, que olhar para onde, sempre olho.
E vejo. Vejo num perto curtíssimo, casinhas graníticas e nuas. São poucas, pouco mais de uma vintena. Algumas só já mostram o telhado castanho escuro. O resto já começou a ir-se da vista com o esmorecer da luz.
Para onde olhe, então, estende-se a solidão dos campos já algo escurecidos, e estende-se, também, o silêncio, um silêncio que cai docemente por vales e cabeços.
O silêncio já principia a dormir e dormirá profundamente.
Num longe um pouco mais longínquo, apesar da escassez da luz, observo o Monte que em breve se esconderá na noite, noite que transportará o breu e encobrirá todos os brilhos e todas as cores da natureza.
Mas, com a noite, não termina tudo, ainda que o silêncio se dilate. Na noite predomina, de facto, o essencial. Não se extingue o pensamento nem se esvaziam as palavras. Pelo contrário, a noite poderá rechear palavras e prenhar pensamentos.
Mas, o Monte quer, hoje e agora, despedir-se.
Olho-o pela derradeira vez porque ele partirá em breve. Partirá e só regressará com a luz. Olho-o como se olhasse para dentro de mim. Aliás, ele habita-me.
Chegam, então, as memórias e confundem-se com pedaços de existência. Todo o contexto se adapta à cor da minha alma. Ela é da cor da minha idade, da cor do tempo que vivo mesmo já tendo sido da cor do tempo que vivi.
Por aqui existiu passado, sim senhor. Há vestígios. Há provas. E se os vestígios amarelecerem não empalidecerão tanto que façam desaparecer as recordações. E recordar é viver, viver outra vez. Na recordação é como se vivêssemos movendo-nos entre sombras, entre emoções, entre memórias.
Por isso me recuso a aceitar que com o passar do tempo, as perdas se façam definitivas. E, não acredito também que o presente se afunile. Antes, os tempos nos trarão presentes sucessivos, diferentes, influenciados por diferentes passados mas, sempre disponíveis para gerar novos futuros. Nós teremos, apenas, que ser conscientes. Não poderemos ser como crianças assustadas, perdidas, a tentar juntar pedaços de vida, para reconstruir, para influenciar o advir. Nada disso. O passado, justa medida do tempo vivido, suporta presente e futuro e, estes terão almas de outras cores e hão-de trazer, à mistura novos tempos.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Entre o que se diz e o que se cala ficará sempre o que pode ser contado e hoje confesso, caríssimo leitor, que nos meus tempos de infância, o mundo inteiro cabia nos limites do meu Pequeno Mundo. Qualquer território adicionado sempre fez crescer a descoberta, sempre foi somando surpresas.

Assim me surgiu a raia como um território exterior, um território do além, para lá do meu mundo infantil, integrando a imensidão de um outro mundo, situado lá, onde, o meu Pequeno Mundo já era para ter acabado.
A Raia parecia-me, pois, o país do sol nascente, situado do lado de lá, do lado de onde vinha a luz do dia. O sol nascia luminoso e radiante rasgando o céu em claridades e, depois, sobrevoava as jornadas até declinar no lado oposto.
A Raia foi, portanto, um território emergente surgido do desconhecido, vindo do reino do abismo, do lado de onde vinham os astros que, sem interrupções, traziam sinais indiciadores de outros mundos.
Com esta descoberta fiquei a saber que, para além dos limites do meu Pequeno Mundo, não ficava o fim do mundo. Fui, então, crescendo, decorreu a infância e a adolescência e a raia foi-se integrando.
Mas a fronteira não era toda a mesma. Havia raias intrinsecamente diferentes! Havia uma mais próxima com maior sabor a Espanha e, até, a França por onde se escapavam os braços endurecidos dos homens de trabalho. Diziam-me que iam «a salto» em busca de melhor sorte. E eu, criança, por cá ficava, meditando, imaginando o salto, adivinhando a sorte.
Mas havia uma outra Raia que só descobri mais tarde, já bem adolescente, quando estudei no colégio (Outeiro de S. Miguel). Essa, outra, começou por me oferecer amigos e não sei por que secreta razão eles se fizeram amigos de toda a vida.
Claro que, inicialmente, me trouxeram novidade, muitas novidades, tantas como se fossem oriundos de um país diferente. Quase trouxeram, encaixando na minha, uma cultura nova. Contaram-me, explicaram-me uma certa festa taurina, a que chamavam garraiada e que chegou a ser simulada entre adolescentes. Falaram-me das festas de S. João, festas de pasmar, com bailes, fogueiras e mastros embonecados, festejos muito diferentes das humildes festas de S. João da minha aldeia. Trautearam-me, na tentativa de melhor me explicarem, cantigas dessas festas. «Aí repenica, repenica, repenica e o São João a suar em bica».
Conheci, sem nunca ter visto, tão só por me terem contado, algumas personagens (típicas) sabugalenses como aquele homem (menos) religioso que no dia da visita pascal meteu o burro em casa. Ora, o pároco, encabeçando o cortejo intentava deixar as bênçãos e recolher esmolas. Chegado à residência da dita personagem abriu o postigo mas apenas foi cumprimentado pelos espirros da alimária.
Não deixo, então, não posso de dizer que… a raia e o Sabugal foram importantíssimos acrescentes ao meu Pequeno Mundo.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
O mundo da imaginação encaixa-se, à perfeição, no mundo da escrita. Desta feita, ao anotar, na minha mente, a intenção de escrever um pequeno texto para a Capeia Arraiana, surgiram-me, de novo, imagens dos contrafortes do Monte (do Jarmelo). E é convencimento meu que a escrita, como a leitura, podem ser boas formas de viajar!

A minha imaginação parte, então, ao reencontro do silêncio inerte das rochas e da solidão das fragas. Depara-se, ainda, com a quietude dos campos e das árvores, com a calada dos sítios, com o carisma dos vestígios milenares, enfim, com os lugares por onde sempre ansiei perder-me.
Ouço queixar o velho Monte da voragem do tempo que o tem feito envelhecer, envolto em vivências de história e de lendas, por entre contos de amores desabridos ou desabrigados.
Para aqui me escapei milhentas vezes. Aqui regressei, ainda adolescente, na procura do meu habitat preferencial. Agora, mais velho, para aqui me dirijo, não quando quero, mas quando posso e aqui, colho as minhas mais gostosas recordações. Assim me assola a saudade tão só porque ela existe e porque ela persiste naturalmente.
Mas sei da calma do Monte, poucas vezes perturbada. Se penso em movimento imagino apenas o voo desgarrado de algum pássaro ou a passagem sussurrante (em sonorização excepcional) do vento entre as ramagens. Seduz-me o adivinhar verde dos carvalhos e dos castanheiros. Convenço-me da infinidade de histórias que, com certeza, foram contadas sem que nunca ninguém as tenha escrito.
Tudo isto me surpreende tanto quanto me surpreenderia pela primeira vez. Tudo isto se me apresenta repetido e, paradoxalmente, tudo me parece novo. Admiro o rural, o tosco, o inculto mas nunca encontro o incultural. Respiro um inegável e denso ambiente histórico.
Entendo muito bem a razão pela qual o rural se pode impor ao urbano e compreendo-me na minha crescente necessidade de voltar, de voltar sempre. Percebo Torga (à exaustão) quando diz «o pouco que sou devo-o às fragas».
E, quando observo as alturas, revejo o marco geodésico gigante, branco, cintado de negro, picando os céus. É como se o Monte falasse. É como se ele levantasse um dedo enorme para chamar a atenção e gritasse história … contra a solidão humana.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
À chegada, Junho costuma fazer-se acompanhar dos primeiros calores estivais. Não tem sido tanto assim este ano ainda que o sol principie a fazer-se de ouro. É, também, por esta época que o céu inventa a cor azul celeste.

O chão ainda não perdeu o verde, ou melhor, o verde/amarelo porque subsistem vestígios dourados (das maias) provenientes dos mais recônditos sítios. Os inícios das manhãs ainda recendem a Primavera.
Os tons quentes e secos do Verão só surgirão lá para Julho e, isto, se S. Pedro fizer questão de manter a tradição.
Ora, em princípios de Junho, falar do Jarmelo é falar da Feira Concurso do gado. Em todos os começos deste mês (este ano no passado domingo, dia doze) o Monte e a Base abandonam quietudes anuais e agitam-se, animam-se, vestem-se de festa e festejam. Sim, pode, por aqui, falar-se de calma, mas não agora. O Monte só é (demasiadamente) sereno todo o resto do ano.
Não se trata, portanto, de uma qualquer, Feira não senhor. Trata-se de uma Feira Concurso com tudo o que caracteriza uma e outra coisa. Há compras e há vendas, claro. Mas há prémios e premiados também. E tem havido, mais recentemente, uma nova forma de animação. A garraiada que, obviamente, foi importada da raia, vem aqui incentivar coragens e inflamar corações.
O gado bovino detém, claramente, a preponderância do concurso embora este seja também extensivo ao gado caprino e ovino.
A Feira transformou-se, ultimamente, numa ocasião de luta. Com o Concurso o Jarmelo torna-se mais visível. Talvez por isso se aproveite reivindicação. Tem vindo a ser solicitado, aos poderes instituídos, que preservem as raças jarmelistas. Trata-se, é evidente, de uma boa luta, de uma luta por causa justa.
É bom que se saiba que há produtores jarmelistas que, em nenhum dia do ano, esquecem esta Feira, este Concurso. Simplesmente cuidam e criam os seus animais no intuito primeiro de aqui vir expô-los, aqui vir sujeitá-los a avaliações. Claro que a certificação da raça seria, para eles, um óptimo prémio. Entretanto vão-se candidatando a outros que vão ganhando e guardando com orgulho pouco disfarçado. Há quem possua, perfiladas em casa, autenticas colecções de taças.
Mas, tudo isto pode, ainda, ser visto como um tributo, um reconhecimento da vaca jarmelista que durante séculos ofereceu à região a qualidade do seu leite, do seu queijo, da sua carne e também do seu trabalho.
As vacas jarmelistas foram, ao longo dos tempos, o principal meio de sustento destas gentes.
Só por isso já merecem parabéns todos aqueles que se têm empenhado promovendo, divulgando e lutando pela sua preservação. Que a sorte os ajude é o mínimo que lhes poderemos desejar.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
O Monte de Santa Bárbara eleva-se ligeiramente a sul do Monte do Jarmelo, plenamente integrado na zona jarmelista. Ambos nascem da mesma base: O do Jarmelo mais alto, o de Santa Bárbara, mais baixo e mais a norte. Ambos se observam mútua e irmãmente.

Em tempos idos, por imperativos de defesa, ambos foram povoados. Na base estendem-se-lhe planuras pouco longas, é verdade, mas densamente ponteadas por pequenas povoações, dispersas, que, receberam, há muito, os habitantes das alturas. Presentemente, estas aldeias vêm-se, elas próprias, cada vez mais desertificadas. No sopé do Monte de Santa Bárbara situam-se, equidistantes do cimo, quatro pequenas localidades: Cheiras, Abadia, Trocheiros e Miragaia. Pínzio, sede da freguesia, afasta-se um pouco, a leste.
A capelinha de Santa Bárbara encima o Monte do mesmo nome e, ali, subsiste desde os primórdios da nacionalidade. É herdeira de um antigo castro lusitano que, em tempos imemoriais, defendeu monte e falda.
O pequeno templo tem constituído e constitui epicentro de devoções e romarias tendo sofrido várias alterações ao longo dos tempos. Aclarado de branco, lá no alto, detém forte carisma religioso influenciador das terras circunvizinhas.
Os cursos de água só na base se atrevem. A leste desliza, estreita e limosa, a Ribeira das Cheiras, cuja nascente se situa a escassas centenas de metros. É uma pequena Ribeira que, a pouco mais de três quilómetros, se abraça à Ribeira das Cabras. A poente a Ribeira da Pêga, mais pedregosa e corpulenta, corre uma dezena de quilómetros antes de contornar Pinhel, sede do concelho. Pouco depois da cidade, também a Pêga, já adulta, encontra a Ribeira das Cabras prosseguindo, ambas numa só, a caminho do Douro.
São terras antigas, estas. Antigas e históricas. Mas, tais características de pouco lhes têm valido, na prática. São parcas em recursos e, por vias disso, têm deixado fugir a maioria dos seus filhos. Cada vez mais vivem tempos de solidão. Esperam, hoje, que volte quem partiu e que se junte aos que ficaram. O mínimo que se pode desejar é que todos consigam ocasos de vidas felizes. Aliás, não apenas os residentes como também os que, ora, regressam marcarão a longevidade destes sítios que resistirão habitados, convenço-me, enquanto uns e outros subsistirem. Depois, Deus dirá…
Foi por aqui, mais concretamente nas Cheiras, que vim ao mundo. Por aqui, criei raízes de infância que nunca quebraram, antes endureceram com a idade. Pisei vezes sem conta este chão. Os meus pés de criança, receberam dele uma marca inevitável e impossível de apagar. Estes montes, estas aflorações graníticas, este permanente contraste entre terras altas e curtas terras chãs, moldaram-me a alma e a personalidade. Eis a razão porque, para onde parto, levo comigo estas terras e, lá, onde eu chegar sempre farei questão de as contar.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Perante a fugaz passagem do tempo decorre, inevitavelmente, a Primavera e sobra-nos, a nós, a sensação de que o razoável não nos basta. Seria forçoso crer no impossível para que o presente pudesse ser promessa de um futuro melhor. E não se leia, nestas linhas, pessimismo porque eu direi que não, que o não é, que é tão só nua e crua realidade.

Enquanto assim, falar de quê? Talvez falar de algo agradável na tentativa de temperar momentos, alguns momentos destes dias que nos gastam sem que nos ofereçam grande realização.
Então que, ao menos, o meu falar não enfade enquanto me refiro ao mítico ambiente histórico/lendário da zona jarmelista. De facto, por aqui, a história e a lenda amalgamam-se, fatalmente, revestindo-se, ambas, de ambiente austero e, paradoxalmente, suave.
Claro que é difícil ficar indiferente perante uma onda de austeridade granítica tonalizada de cinzento, quase feia, entremeada de verdura frutificante como que propondo um derradeiro e forte apelo à esperança. Repare-se, ainda, no formato terno e feminino do Monte terminado, lá no alto, por dois cimos sugerindo uns seios de mulher. Razões e contrastes capazes de marcar personalidades.
Coloquemos, então, sobre este Monte uma presença histórica de defesa estratégica que assistiu à sucessão dos séculos. Tal historicidade fica provada por dois forais, o primeiro de D. Afonso Henriques e o segundo Manuelino. Também o rei D. Pedro se afeiçoou a estes sítios onde desfrutou encontros amorosos, festas e caçadas. Mas, tais circunstâncias, não podem fazer olvidar o futuro perante a modernidade que lhe pisa os pés. A auto estrada que se lhe estende em frente perde-se numa infindável extensão, sonorizada por uivos ultra velozes de motores acelerados que ligam Portugal ao interior da Europa.
E, sim, é do contraditório que nasce a razão e é no contraste que se constrói o equilíbrio. Não será de esperar que, por aqui, a modernidade, apague a história nem que a história ofusque a modernidade.
No cimo da montanha subsistem vestígios de um castro lusitano e de um povoado medieval que ficarão eternamente ligados aos trágicos amores de Pedro e Inês provavelmente a mais célebre história de amor em Portugal.
De mãos dadas com a história emerge, assim, a lenda (tal como esta) de uma pedra, que o povo crê ter sido a pedra de montar de Dona Inês de Castro. Ao longo dos tempos os Jarmelistas impuseram a eles próprios, a conservação da dita pedra e, para tal, foi correndo a tradição de as noivas pagarem uma tença ao casarem. Ainda hoje é sobejamente conhecida a quadra «Adeus Vila do Jarmelo/ Adeus perda de montar/ Enquanto o Mundo for Mundo/ Dinheiro hás-de Ganhar».
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Venho daqui… da base do meu Monte (do Jarmelo) e venho por impulso. Trago o meu Monte comigo e, com ele, trago-me e ao meu mundo.
Porque venho? Julgo que por cumplicidade.
Da base do meu Monte gosto de lançar olhares a terras de Espanha. E vejo. Vejo longínquas serranias a terminar longas distâncias cinzentas. Adivinho, então, outros montes. Lá longe, lá onde se esbatem as serras espanholas haverá, certamente, montes diferentes.
Mas sei. Sempre soube que a menos de meio caminho fica a Raia a tal Raia de enigmas, a raia dos Raianos, das heroicidades diárias, dos contrabandos e contrabandistas. A Raia dos dialectos e também das capeias.
Bem mais próximo esvai-se em águas o Rio Côa, o Rio enorme, o Rio imenso da minha meninice. Um Rio que foi minguando, minguando enquanto eu crescia até que chegou ao tamanho real.
Aqui e lá, a dureza da vida, a dureza das gentes, a dureza mais dura da profundeza beirã.
Aqui há mais monte do que rio. Lá há mais rio do que monte.
Daqui são as vacas mansas e os bois pacatos da procriação. O trabalho não os isenta de belezas concursantes. Sim porque aqui o ónus do amanho das terras pertencia-lhes, por inteiro, até há bem pouco tempo. Mas, todas as primaveras há um dia em que o trabalho cessa para que o cume do Monte do Jarmelo se engalane com o concurso do gado jarmelista.
Lá são os touros bravos, nobres e irreverentes mas não menos belos. Tão belos como é bela a agreste beleza selvagem. Lá, se não há concursos, há capeias.
Cá e lá o povo vive e goza estas festas até ao mais íntimo, até ao âmago.
A bravura de lá já se juntou à valentia de cá e o meu Monte já tem uma praça de touros sóbria e granítica (como forçosamente teria de ser) onde o forcão raiano já lida consolidando uma vez mais, em cada vez, a experiência nova de uma capeia arraiana.
Então, de lá e de cá a mesma paixão!
E claro, a fronteira. De lá muito próxima. De cá mais afastada. Lá e cá carismática e determinante.
Depois as amizades, as coincidências e as diferenças (que também unem). Também as vivências enraizadas, as convivências e outras coisas mais.
Quase tudo cumplicidades!
Talvez por isso aqui esteja eu (e sinto-me bem) vindo da base do meu Monte até ao blogue da Capeia Arraiana.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo
Capeia Arraiana saúda Fernando Capelo, natural das terras vizinhas ao Monte do Jarmelo e grande amigo das gentes da Raia, que aceitou o desafio de colaborar regularmente neste espaço de opinião livre e responsável, trazendo-nos novas perspectivas, que certamente contribuirão para o debate que regularmente aqui acontece.
plb e jcl

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