Repetidamente se tem afirmado que a Europa é, acima de tudo, uma unidade civilizacional.
Geograficamente, os limites têm alguma coisa de impreciso e oscilante, não se identificando a verdadeira Europa com a dos compêndios ou a dos literados.
Detenhamo-nos na de Camões:
Entre a zona que o Cancro senhoreia
Meta setentrional do sol luzente
E aquela que, por fria se arreceia
Tanto como a do meio por ardente
Jaz a soberba Europa a quem rodeia
Pela parte do Arturo e do Ocidente
Com suas salsas ondas o Oceano
E pelo sul o mar Mediterrano.
Pela parte donde o dia vem nascendo
Com a ÁSIA se avizinha, mas o rio
Que dos montes Rifeioa vem correndo
Na Alagoa Meotis curvo e frio
As divide e o mar que fero e horrendo,
Viu dos gregos o irado senhorio
Onde agora da Tróia Triunfante
Não vê mais que a memória o navegante.
Como na tradição geográfica, o limes fixa-se a norte no Oceano, a sul no Mare Nostrum, a ocidente outra vez no mar Atlântico e a levante no rio Ural e mares de Tróia.
Mas será esta a verdadeira Europa do espírito e da solidariedade social?
Mitologicamente a bela Europa nasceu fenícia: filha de Agenor e Telefasa; irmã de Fenix, Cilix e Cadmo, o dos dentes esparzidos.
E da Ásia Menor rodou mesmo para o Norte de Africa: Urbe antiqua fuit/Tyrii tenuere coloni/Cartago…
À dimensão mítica, seguiu-se a do Império Romano. Vieram depois as de Carlos Magno e de todos os Otões. Durante séculos, os cartógrafos omitiram as terras para além do Danúbio. E para alguns pensadores, os mapas estariam certos: «Essas paragens ou nunca tiveram cunho europeu, ou cedo vieram a perdê-lo; desapareceram do devir histórico por largas centúrias; ficaram desertas, abandonadas: bosques frios, noites de lobo…
A verdadeira Europa será, de qualquer modo, a que se confundiu com o Orbs Cristianus da Meia-Idade. Do milénio que transcorreu entre as quedas das duas cidades imperiais (Roma e Constantinopla), os séculos construtores vão de 1050 a 1350, tempo de consolidação da República Christiana, a única União Europeia verdadeira até hoje conseguida. A Cristandade, que não a Igreja, e é bom não confundir as duas realidades, tentação de muitos (até bem intencionados), visava uma preocupação essencial: unificar.
Como acentua Daniel Rops, in «A Igreja das Catedrais e das Cruzadas», impôs-se então aos baptizados o sentido de uma profunda unidade.
Virgil Gehorgiu, na obra «A Juventude de Lutero», exprimia-se assim: «A palavra de ordem era REDUCERE AD UNUM: Urn só chefe: o sucessor de Pedro; uma só língua: o latim; uma só lei: a da Igreja».
Ou numa outra passagem de outro autor: «L’ideal etait de faire dependre toutes les formes de vie, avec toutes leurs valeurs et toutes leurs, vertues non pas liés, mais vassalisées, de La Cretientée…»
Todos são um corpo em Jesus Cristo, enleando-se as duas criações de Santo Agostinho: a Civitas Dei e a Civitas Hominum, quando mesmo esta resvalava para a Civitas Diaboli…
Maritain apelidou esta visão de utopia teocrática, até porque guiada por santos e místicos.
Mas do que não pode haver dúvidas é que foi esta a verdadeira génese da Europa.
É certo que as actuais concepções se revelam quase antiéticas. Tanto como as da mitologia às da Igreja…
Na sociedade medieva, as relações entre os homens não eram impostas por simples exigências humanas, mas, acima de tudo, por factores religiosos. 0 Homem, em si mesmo transitório, era, porque integrado na Cristandade, parte de um tempo eterno, como que divinizado pela sua absorção no Corpo Místico. Os caminhos de Deus, mesmo quando se trilhavam as veredas do Diabo, eram a meta. A consciência do carácter efémero da vida, a convicção de que tudo na terra desaparecerá como tenda de uma só noite, a ideia de que do nascimento à morte apenas se preparavam os quatro novíssimos, dominavam a vida do homem medievo, autenticamente europeu: pertencesse ele à ordem dos bellatores (guerreiros e políticos), laboratores (os de todas as demais profissões), ou oratores (que faziam o trânsito terreal, rezando, meditando e contemplando).
São estas, queira-se ou não, as raízes espirituais da Europa, bebidas no Orbs Cristianus.
Vieram, depois, outras ideias, que hoje são também património espiritual de nós todos e cuja conciliação se torna, por vezes, bem difícil.
Desfeita aquela unidade, que só utopicamente existiu, a Europa vive nostálgica dessa idade, para si de ouro.
Pela hegemonia política ou económica, por vezes mesmo pela conquista militar, nunca mais se perdeu a ânsia de a refazer.
Fenómeno espiritual é ao espírito que cabe a sua reconstituição. Não, obviamente, à maneira medieva, que o mundo não pode viver duas vezes o mesmo momento.
Mas o espírito sopra onde e quando quer. E parece ter chegado a hora, para repetirmos com Victor Hugo: «Saudemos a aurora abençoada dos Estados Unidos da Europa».
Mas não faz mal recordarmos as raízes, até para prevenir que, como na mitologia, gere monstros.
O Minotauro nasceu, efectivamente, do adultério entre a Europa e o Touro que disfarçava Zeus.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

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6 comentários
Comentários feed para este artigo
Sábado, 31 Dezembro, 2011 às 2:09
fernando lopes
Mestre, um texto finíssimo!
Sábado, 31 Dezembro, 2011 às 10:50
António Emidio
Mestre Leal Freire:
Gregos e Romanos foram os povos da antiguidade que lançaram os fundamentos do futuro do Ocidente.
Sábado, 31 Dezembro, 2011 às 12:06
Henrique Manuel
Senhor Dr. Manuel Leal Freire:
Uma grande e calorosa saudação deste seu admirador e antigo aluno da Escola Industrial e Comercial da Guarda. Consigo muito aprendi a respeitar os nossos valores históricos e seculares. Sobretudo a ser fiel às nossas raízes identitárias.
Graças ao seu espírito de Grande Pedagogo fui impulsionado a publicar no jornalzinho paroquial “LUZ DA BEIRA”, da minha terra natal, Mêda, uma singela redacção sobre “Os Castelos da Beira Serra”, que o meu querido Professor julgou merecer ser divulgada… A partir desse momento não deixei de ir “rabiscando” em diversos jornais: Correio da Beira, A Guarda, Jornal do Fundão, Notícias da Covilhã, Reconquista, Raiano, etc.
Até me arrojei a publicar alguns livrinhos: Comissão em Timor, impresso na Casa Véritas, Monsanto na História e Tradição. E o último trabalho, que considero de algum folgo, “Rádio Clube de Monsanto – 25 Anos Consigo” , o qual terei muita honra em lhe oferecer, como preito de muita gratidão e alto apreço.
Embora à distância tenho, discretamente, seguido o seu multifacetado percurso de vida, sempre ao serviço de Nobres Causas.
Desculpe estar a ferir a sua modéstia e sensibilidade. Mas não podia perder esta oportunidade (e adiar por mais tempo) para lhe dizer, de forma pública, de quanto o Senhor Dr. Manuel Leal Freire foi uma marco muito importante e decisivo para encontrar o meu CAMINHO neste “Vale de Lágrimas”. Sou-lhe devedor de muitos outros favores e amizade generosa, que só não menciono por não ter o direito de abusar deste precioso espaço.
Por certo ainda se recorda que eu perdi o meu saudoso Pai, com apenas dezasseis anos de idade e fiquei com cinco irmãos mais novos…A minha saudosa Mãe, que no ano passado ano, com 84 primaveras, nos deixou, mesmo sendo analfabeta, foi, também, a minha Grande Heroína.
Desejo-lhe e a toda a sua Família uma óptima entrada neste Novo Ano de 2012, que será muito duro, por culpa de políticos irresponsáveis, que farão pagar à nossa Mocidade e às gerações futuras todos os seus erros e desmandos gananciosos, para não dizer criminosos.
Gostaria muito de um dia o poder receber nesta pequena aldeia, ainda proclamada de “Mais Portuguesa”.
Um rijo abraço de infinita gratidão e estima deste seu aluno da “Velha Guarda”.
Seu servidor,
Joaquim Manuel da Fonseca
Entretanto pode visitar-nos em:
http://www.radiomonsanto.pt
Terça-feira, 3 Janeiro, 2012 às 12:02
Manuel Leal Freire MANUELLEALFREIRE
Segundo Platão a única causa de revigoramento de um pedagogo no fim da idade é o reconhecinento dos discípulos. E, para Aristóteles, a alegria do mestre, em qualquer idade é ter no aluno um espelho que lhe permita dizer REVEJO-ME EM TI…
Essa dupla satisfação deu-ma mais uma vez, o meu antigo aluno JOAQUIM MANUEL FONSECA ao declarar pela enésima forma ter sido eu quem lhe despertou o gosto pela escrita e o culto pelo regionalismo.
O mérito estava insito nele e eu, quando muito, fui o catalitico que lhe acendeu a chama, que sem a minha, ou qualquer outra intervenção acabaria por sair debaixo do alqueire e rutilar triunfantemente.
O seu apego a Timor, símbolo ímpar da Portugalidade, por todo esse vasto mundo onde se radicaram comunidades nossas, ou a Monsanto, portuguessima relíquia no limes da antiquissima diocese egitaniense, são marcas que enobrecem náo só o próprio, mas quantos de algum modo infuenciaram a sua personalidade.
Seu factor, infinitesimal embora revejo-me, pois, no seu estilo de escrever e viver portuguesmente uma saudável portugalidade, aberta como é nosso timbre a todas as culturas.
Em oitenta e três anos de idade, levo setenta ou mais de professor.
Na escola primária, o titular do cargo encarregava-me já de tomar conta até dos da minha classe.
Estudante, dei explicações de tudo e então abrangiam o trivium e o quadrivium.
Depois, habilitado para o munus comecei pelo ensino primário, passei ao secunário, ao técnico — e neste encontrei o Joaquim Manuel —ao normal — onde,como foi reconhecido revolucionei a didáctica do Português e da Aritmética — ao altamente especializado — formaçao e aperfeiçoamentodo pessoal bancário superior -, ao Universitário —faculdades de economia e de direito.
Revejo-me soberanamente satisfeito em milhares, que não apenas centenas de alunos.
E um daqueles em que mais gostosamente me revejo, pelo culto que ambos prestamos à NOSSA CULTURA, AO REGIONALISMO E PORTUGALIDADE, É O JOAQUIM MANUEL DA FONSECA, CULTOR LÍRICO DE MONSANTO DA BEIRA, FUNDADOR E DIRECTOR DO RÁDIO CLUBE DE MONSANTO, O SOM POPULAR AO SERVIÇO DO
REGIONALISMO.
Sábado, 7 Janeiro, 2012 às 11:15
Henrique Manuel
Senhor Dr. Manuel Leal Freire:
Meu ilustre e Bom AMIGO PROFESSOR:
Mas que grande e maravilhosa surpresa !!! Estou emocionado e confundido. Não esperava, sobretudo, por bem no fundo do meu coração, eu não ser merecedor de o meu nome estar envolvido em tão fina e elegante prosa. Só justifico invocando o velho ditado: “para Amigos mãos rotas”. E o meu querido e saudoso Professor, Dr. Manuel Leal Freire foi exagerado na sua imensa generosidade para com a minha modesta pessoa. Mesmo assim aqui deixo registado o meu sentido e sincero BEM HAJA. Que Deus lhe dê muita saúde neste Novo Ano de 2012. E a alegria de um dia o rever em Monsanto da Beira. Um rijo abraço de muita admiração, gratidão e apreço do seu antigo aluno da “Velha Guarda”.
Joaquim Manuel da Fonseca
Sexta-feira, 6 Janeiro, 2012 às 10:39
João Valente
A Europa como entidade cultural e politica viável só existiu no tempo do Império Romano e Carolinigeno e da época Gibelina, porque uma diversidade de culturas, línguas e nações só é unificável pelo poder supremo do «imperium», como autoridade secular de origem sagrada inquestionável, que se impõe de cima para baixo a toda a sociedade. A igreja foi sempre inimiga do «imperium», como estratégia de auto-afirmação política e religiosa (celebres as lutas contra o império sacro-romano e Frederico II); a consequência foi o desaparecimento de uma autoridade centralizadora capaz de unificar a Europa. A igreja não uniu a Europa… dividiu-a!