Quem analise um pouco o procedimento e até a vida interna dos Partidos Socialistas da Europa, vê com toda a clareza que houve uma viragem ideológica à direita, dos seus dirigentes.

Essa viragem começa nos anos 80 do século passado, com o Partido Socialista Francês, com o Partido Social Democrata Alemão e com o Partido Trabalhista Inglês. Este último, debaixo da liderança de Tony Blair, mentor da chamada Terceira Via, que não é mais nem menos do que a Teoria do Fim das Ideologias, um pensamento próprio da direita, mas que teve uma grande influência nas mudanças e na deriva ideológica do Socialismo Democrático Europeu. Como exemplo, talvez o mais flagrante, tenha sido a substituição das intervenções públicas, prestações sociais, que tinham e têm por finalidade desenvolver direitos sociais para todos os cidadãos, por políticas assistenciais, combate à pobreza e à exclusão social. Esta política origina grandes desigualdades na sociedade e a concentração da riqueza em poucas mãos. Foi o que aconteceu nos países europeus governados por partidos socialistas, que chegaram a ser a maioria na Europa.
O Partido Socialista Francês, uma referência do Socialismo Democrático Europeu, elegeu a subordinação do social à «credibilidade» económica, ou seja, ao Neoliberalismo. Aceitou todos os tratados da União Europeia, que como sabemos são ultraconservadores. Aceitou também a desregulação dos mercados dentro da própria França, isto é o Laissez Faire, tão querido dos ultraliberais. O ex ministro da cultura francês, Jack Lang, define assim o PS Francês: «Uma árvore seca». Os outros Partidos Socialistas Europeus seguiram o mesmo caminho. Em Portugal, o símbolo máximo foi José Sócrates e o seu «Socialismo Liberal», acolitado por fervorosos fiéis. Espero que nenhum resquício socratino me diga que tem saudades dele, a isso respondo com esta espécie de anedota, mas lá no fundo, com algum sentido: o maior triunfo político de José Sócrates foi…Passos Coelho.Pura coincidência querido leitor(a), chegou-me agora mesmo às mãos o manifesto «Um novo rumo» lançado por Mário Soares e outras personalidades, antes da greve geral do dia 24 de Novembro (estou a lê-lo a 23). Num dos parágrafos lá diz bem claro: «As correntes trabalhistas, socialistas e sociais-democratas adeptas da 3ª. Via, bem como a Democracia Cristã, foram colonizadas na viragem do século pelo situacionismo neo-liberal».
E neste principio de século, que rumo para o Socialismo Democrático? Regressar às origens – Justiça Social, defesa da Dignidade do Trabalhador, Liberdade e Democracia. Para nós portugueses, a isto temos de juntar – RECUPERAÇÂO DA NOSSA SOBERANIA!!!
Não há que ter medo a estas palavras, têm de fazer parte do léxico do Socialismo Democrático. Alguém dizia, com razão, que o mais «vermelho» que se ouve presentemente aos socialistas é «coesão social».
A Globalização económica e tecnológica marcam as leis, os centros de poder e a Democracia estão nas mãos de dirigentes da banca, a UE avança debaixo do modelo alemão, guerras e nacionalismos estão em incubação, o meio ambiente continua a ser desrespeitado. Esta é a política do Grande Capital, que vê como utópica e irrealizável qualquer política diferente desta.
A única alternativa a esta barbárie é o Socialismo Democrático, mas para isso há que pôr de parte o pragmatismo eleitoral, ou seja, procura de votos em qualquer escalão altíssimo da sociedade e a qualquer preço, levando isso muitas vezes a que algumas classes médias altas aburguesadas e, até oligarcas se tenham apresentado como socialistas, mas que nunca se tenham integrado no Socialismo Democrático, tendo posturas individuais e sociais que obrigam à perca de outros apoios importantes, dito de outra maneira, trocar os humildes, os explorados e os desempregados que votam por convicção, por elites que votam por interesse, tudo isto feito numa atitude subserviente para com os poderosos. Também é necessário terminar com a indefinição ideológica e programática, porque muita desta nova classe dirigente, sem experiência e sem interesse em questões sociais, tem um conhecimento superficial da história dos movimentos dos trabalhadores ao longo dos tempos, também essa superficialidade se nota na análise política e económica. Infelizmente, também já atiraram para o caixote do lixo da história, homens como Lón Blum, Jean Jaurés, Salgado Zenha, António Arnaut, entre outros.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio
ant.emidio@gmail.com

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1 comentário
Comentários feed para este artigo
Quarta-feira, 7 Dezembro, 2011 às 15:41
fernando capelo
Amigo Nabais
Eu acho que mais que qualquer viragem houve uma, quase completa, perda de ideologia!!!
Um abraço.