O profeta, o escolhido e bem-amado, ele que era o amanhecer do seu próprio dia, regressou à sua terra natal, no mês de Agosto, o mês da saudade.
Seguido dos seus discípulos, atravessou o rio na velha ponte, e seguiu pela estrada que ladeia a colina do vetusto castelo, e enquanto avançava, crescia a alegria no seu coração.
Lembrava-se ainda daquela terra como um jardim grande e belo, com suaves pastos onde brotavam, lindas flores semelhantes às estrelas e havia doces meloais que na Primavera se cobriam de flores delicadas rosa e pérola e no Outono davam um fruto saboroso; hortas bem amanhadas, sobre o rio, com as suas picotas, dando todo o mimo de verduras. Lembrava-se ainda como nas árvores pousavam os pássaros que cantando tão melodiosamente, faziam com que ele, em menino, ficasse em silêncio a escutá-los por longas horas. Ou como ía de um lado para o outro admirando as belezas da natureza, pensando que Deus mudara de sítio nas alturas, aproximando-se da terra. Lembrava-se sobretudo do jardim bem cuidado; as açucenas vestidas de branco, erguendo-se com certo desmaio, como as raparigas em traje de baile, que em menino tinha admirando nas revistas; as camélias, de cor carnosa, fazendo pensar nas pernas desnudas, em grandes senhoras, indolentemente deitadas, mostrando os mistérios da sua pele de seda; as violetas ocultando-se entre as folhas para se denunciarem com o seu perfume; as margaridas destacando-se como botões de ouro malte, os craveiros, qual avalanche revolucionária de gorros vermelhos, cobrindo o canteiro, e no horto a grande amendoeira balanceando o sua ramagem como um incensário de branco e rosa que se espalhava mais agradável que o das igrejas.
Chegando às primeiras casas, parou, e disse orgulhosamente:
– Vede – e apontando o casario – aqui tendes, finalmente a terra que me viu crescer.
Então, um dos discípulos deu um passo em frente e disse:
– Vê este grupo que saíu ao nosso caminho. Souberam da tua chegada, e vieram, abandonando as suas terras e vinhas, esperar-te.
E ao profeta, vendo o pequeno grupo, o seu coração enterneceu-se. Nisto, surgiu um murmúrio no grupo, um murmúrio de afecto e súplica.
E o profeta olhando-os, disse:
Quando fecho os olhos, no reboliço da cidade, vejo estes lameiros, cheios de verdura e freixos, cujas copas alcançavam o céu. Cada vez que tapo os ouvidos ao barulho da cidade oiço o murmúrio da ribeira e o resfolgar do vento nas ramadas. Todas estas belezas da minha imaginação, recordam-me a minha infância e juventude, que eu anseio reviver convosco neste meu regresso.
E aquela gente sentiu um calor nos seus corações ao ouvir estas coisas, e um deles disse:
– Onde te escondeste para que não vivamos na luz da tua presença? Pois olha: Todos estes longos anos te amámos e ansiámos que voltasses são e salvo. E agora a gente pede aos gritos para falar contigo; Peço-te que apareças diante do povo e lhe expresses a tua sabedoria, e consoles os aflitos e instruas os ignorantes.
O profeta, comovendo-se, disse:
– Não me chames sábio, a menos que chames sábio a todos os homens. Somos apenas folhas verdes da árvore da vida que um dia o vento levará, e a vida está muito acima da sabedoria e da ignorância. Ninguém é sábio ou ignorante.
E retomando o caminho, com os seus discípulos e o pequeno grupo de seguidores, entrou na rua que conduzia ao seu jardim, que fora o jardim de sua mãe e seu pai e onde dormiam o sono eterno os seus antepassados. E alguns queriam segui-lo para lhe prepararem um banquete de boas vindas, segundo o costume da terra, mas ele pediu que o deixassem só porque o seu pão era o pão da saudade, e o seu copo transbordava de vinho da lembrança, que desejava beber só.
E o profeta chegando ao jardim dos seus pais, entrou nele, e fechou o portão, para que ninguém o seguisse. E durante quarenta dias e quarenta noites viveu sozinho naquela casa e naquele jardim e ninguém se aproximou daquele portão, que permanecia fechado, e todos sabiam que pretendia estar só. Ao fim dos quarenta dias e quarenta noites, ele abriu o portão para que pudessem ir vê-lo.
E vieram alguns dos seus discípulos que se sentaram em volta dele. E no pequeno largo defronte, juntou-se uma grande multidão: Adultos, velhos, robustos e enfermos, de rosto curtido pelo vento e pelo sol. Um deles falou e disse:
– Mestre, os nossos corações estão amargurados e não sabemos porquê. Suplicamos-te que nos consoles e que abras o nosso coração e mentes ao significado das nossas penas.
E o profeta, olhando as colinas e o céu azul, suspirou e disse:
– Amigos, compadecei-vos da terra que está cheia de crenças e vazia de religião. Compadecei-vos da terra que veste o que não tece, come o pão que não cultiva e bebe o vinho que não corre dos seus lagares. Compadecei-vos da terra que aclama os fanfarrões como heróis e cujos sábios morreram com o passar dos anos. Compadecei-vos hora pela terra onde o ventre das mulheres secou e que já não ouve os risos e as brincadeiras das crianças nas suas ruas e praças. Compadecei-vos da terra que só grita quando caminha num funeral, que apenas se orgulha das suas ruínas, que nem se revolta quando a votam ao desprezo. Compadecei-vos da terra cujas autoridades gastam o que não tem em obras megalómanas, cujos filósofos são ogres prestidigitadores, e cuja política é uma arte de remendos e efabulações. Eis, pois aqui resumidamente, o significado das vossas penas: Sois um bando espectros; um bando de inúteis, isto é o que vós sois! De que vos queixais, portanto?
Nisto, fez-se um longo silêncio, interrompido por um gradual clamor que se levantou na multidão. Um dos tais ogres avançou com uma pedra na mão, à cabeça de toda aquela gente, e vociferou:
– Quem te julgas para nos vires dar aqui lições de moral? Só porque foste por esse mundo, vistes coisas, és melhor que nós, que ficámos? Não precisamos cá de ti para nada! – e fazendo o gesto de arremessar a pedra – Volta por onde vieste!
Então, o profeta acendeu calmamente o cachimbo, levantou-se, ajeitou a boina, passando calmamente entre a multidão. E secundado pelos seus discípulos, parando à saída da sua povoação, apoiado no bordão, voltando-se para contemplar uma última vez a silhueta do velho castelo e daqueles montes em redor, falou aos seus discípulos, dizendo:
– Quem nunca foi vítima da mordedura das serpentes e nunca sentiu as ferroadas dos lobos?
E, sacudindo a poeira das sandálias, no que foi imitado por todos eles, fez-se novamente ao caminho.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente
joaovalenteadvogado@gmail.com

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4 comentários
Comentários feed para este artigo
Quarta-feira, 30 Junho, 2010 às 7:55
António Emídio
Amigo João Valente:
As serpentes só mordem a quem vive e caminha de pé.
Os lobos só mordem os cordeiros inocentes.
Os ogres vivem de joelhos.
Ninguém é profeta na sua terra.
Quarta-feira, 30 Junho, 2010 às 11:59
Jose Morgado
Optima peça literária que bem lida dá muito que pensar. A semelhança gritante com a realidade não é pura coincidência.Devia ser lida e comentada nas escolas do nosso concelho que se calhar vão fechar.Parabens “profeta”
Quinta-feira, 1 Julho, 2010 às 12:04
Manuel L.F.Nunes(A.Bispo)
Amigo João:
Almoçámos,em Novembro, na mesma mesa, na festa do “Bucho raiano”. Não lhe conhecia os seus “enormes” e doutos saberes literários.
Estou plenamente de acordo com o sr José Morgado. Quiçá o seu texto poderia ser considerado uma elegia ao mais que previsível encerramento de várias escolas do nosso concelho. Desculpem-me se melindro alguém.
Creio que poderia ser tomado como um “excelente elogio fúnebre”. Não tem nada a ver com o autor, bem pelo contrário. Tem a ver, sobretudo, com o “economicismo grotesco e bafiento” dos gabinetes em que “mangas de alpaca” se acotovelam e decidem!
Quinta-feira, 1 Julho, 2010 às 18:11
joao Valente
Lembro-me bem. Aquele abraço arraiano.