A polémica que, de repente, se levantou por causa da instalação de sistemas de produção de energia eólica nas serranias perto de Sortelha, leva-me a tomar uma posição que, como sempre, é a minha.
Em primeiro lugar as questões técnicas.
Portugal é um dos países da Europa mais dependentes do exterior do ponto de vista energético: a energia que consumimos é produzida a partir do petróleo (importado), do gás natural (importado) e do carvão (importado).
Alternativas, duas, técnica e financeiramente aceitáveis, ambas com fortes impactos ambientais: hídrica, aproveitando a energia das águas dos rios, obrigando à construção de grandes barragens; eólica, instalando torres de grande dimensão, nos locais onde há vento, logo impondo-se a paisagens muitas vezes de elevada qualidade.
Há ainda mais três alternativas: solar fotovoltaica, hoje de elevado custo financeiro e exigindo a reserva de áreas de grande dimensão; hídrica, aproveitando a energia das ondas, quase que em regime ainda experimental e de pequena dimensão; e a energia nuclear, cujos custos económicos e ambientais ainda não estão claramente avaliados, venha quem vier dizer o contrário.
Em segundo lugar, os interesses inconfessáveis, os daqueles que com falinhas mansas vêm defender o seu próprio bolso, levantando questões e lançando para o ar mentiras como verdades, como vem acontecendo, em parte, com os defensores dos interesses instalados ou de potenciais novos investidores na área energética. E essa de produzirmos energia a mais, só vindo de quem veio…
Dito isto, qual é a minha posição em relação às eólicas em Sortelha, mesmo que com esta posição desagrade a muitos dos meus amigos?
1. Defendo de forma intransigente a opção eólica face às opções mais poluentes (petróleo, gás ou carvão) de produção de energia, ou mesmo ao nuclear;
2. Não entendo que uma torre eólica seja mais perturbadora da paisagem que uma torre de média tensão ou outro qualquer obstáculo físico que pode, por exemplo, ser uma simples casa construída em materiais ditos modernos ou em uma qualquer antena parabólica no telhado ou na parede de uma casa de granito.
3. Não considero que os visitantes de Sortelha deixem de visitar esta aldeia por causa das eólicas.
E tendo esta opinião, tenho, no entanto, de deixar aqui um alerta a quem de direito.
As questões técnicas nem sempre devem ser a base para uma tomada de decisão.
Não duvido que técnicos de grande «sabedoria», sentados nos seus gabinetes em Coimbra ou em Lisboa, concluíram, depois de largos meses de «reflexão profunda», que em Sortelha havia bom vento e terras disponíveis. Também não duvido que esses mesmos técnicos concluíram que não eram afectados os ecosistemas existentes, nem as linhas de água. Igualmente estou certo que tomaram a sua decisão de boa fé.
Mas duvido muito que esses mesmos técnicos se tenham colocado na posição do cidadão que vive ou trabalha em Sortelha. Duvido que tenham pensado em Sortelha e na sua importância histórica. Duvido que tenham estudado localizações alternativas que minimizassem os impactos das torres na paisagem que se avista de Sortelha.
Mas duvido ainda que da parte de muitos dos conterrâneos e amigos que se declaram contra a instalação destas torres haja o conhecimento sobre o local onde vão ficar e do real impacto das mesmas sobre a paisagem.
Dito tudo isto, penso que seria mais prudente que os responsáveis pelo licenciamento da instalação das eólicas e os investidores reestudassem o assunto, não na perspectiva de inviabilizar a sua instalação, mas sim tentando encontrar uma localização alternativa que diminuísse os impactos sobre a paisagem de Sortelha.
E digo que seria mais prudente da parte dos dinamizadores do movimento contra a instalação das eólicas em Sortelha que adoptassem uma posição de diálogo e de concertação com as entidades decisoras e com os investidores no sentido de se encontrar uma solução que servisse os interesses de todos.
Neste como noutros casos, o bom senso deve ser a bússola de todos…
«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos
rmlmatos@gmail.com

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16 comentários
Comentários feed para este artigo
Quinta-feira, 15 Abril, 2010 às 9:28
joao valente
Concordo em absoluto
Quinta-feira, 15 Abril, 2010 às 10:51
nide
Uma antena numa casa de granito, poderá sempre ser retirada, em qualquer altura.
Uma casa construida com materiais ditos modernos, poderá sempre ser “reparada”.
A colocação de mais de uma dúzia de postes eólicos na envolvente de Sortelha e todas as infra-estruturas, necessárias para a sua colocação será um mal irreparável. Aquilo que a natureza levou milénios a construír, poderá ser destruído num curto lapso de tempo.
Sortelha e o seu centro histórico fazem parte de um todo, onde a envolvente paisagística tem um lugar importante.
Quinta-feira, 15 Abril, 2010 às 13:34
Bruno Gonçalves
Alguém que sabe o que diz!
Concordo plenamente com o que disse o Sr. Ramiro Matos.
Bruno Gonçalves
Quinta-feira, 15 Abril, 2010 às 14:14
sofia
Viva Sortelha e a sua evolução.
Então e agora o movimento contra as éolicas também vão querer as casas daqui de sortelha retirem as parabólicas? Afinal também faz parte da modernice não?
Por favor.
Quinta-feira, 15 Abril, 2010 às 17:53
kim tomé
“Mas duvido ainda que da parte de muitos dos conterrâneos e amigos que se declaram contra a instalação destas torres haja o conhecimento sobre o local onde vão ficar e do real impacto das mesmas sobre a paisagem.”
Então o senhor que até tem funções na Câmara faça lá o favor de nos esclarecer onde vai ser, uma vez que o Ex-presidente da junta de freguesia que deu o parecer favorável no estudo de impacto ambiental e que por acaso parece ser o representante da empresa que pretende colocar as eólicas, diz um numero e o Exmo. Presidente da Câmara diz outro.
Esperamos todos ansiosamente pelo esclarecimento de quem tem responsabilidades na matéria.
“2. Não entendo que uma torre eólica seja mais perturbadora da paisagem que uma torre de média tensão ou outro qualquer obstáculo físico que pode, por exemplo, ser uma simples casa construída em materiais ditos modernos ou em uma qualquer antena parabólica no telhado ou na parede de uma casa de granito.”
O senhor não pretende com toda a certeza minimizar a verdade do impacto, não é uma são 17 ou 18 de acordo com a contradição declarada publicamente pelo ex-presidente de junta que não corresponde às declarações do Sr. Presidente da Câmara..
Ainda bem que fala nisto das antenas porque, o Ex-Presidente da Junta de Freguesia de Sortelha o mesmo que representa os interesses da empresas de eólicas, até tem bastantes antenas de televisão e parabólicas nas casa que são da sua responsabilidade dentro de muralhas, apesar de ter plena consciência de que essa é uma clara violação dos pressupostos que estiveram na recuperação da Aldeia, e de haver distribuição por cabo dentro do perímetro muralhado da aldeia.
Que é que o município do Sabugal fez para o evitar? NADA!
Mas como o Senhor até tem responsabilidades e poder, esclareça-nos lá se faz o favor.
“E digo que seria mais prudente da parte dos dinamizadores do movimento contra a instalação das eólicas em Sortelha que adoptassem uma posição de diálogo e de concertação com as entidades decisoras e com os investidores no sentido de se encontrar uma solução que servisse os interesses de todos.”
A nossa posição foi de dialogo, a nossa posição foi de tolerância, a nossa posição foi de contribuição honesta e séria, e o senhor sabe o que aconteceu.
Ou quer que conte aqui todas as agressões, boicotes, atentados, injurias, calunias de que fomos vitimas?
Se eu soubesse que desconhecia os factos, até os relatava aqui mas como sei que o senhor tem conhecimento deles, escuso-me a ser chato com um texto tão extenso.
Espero ansiosamente que nos esclareça…
Quinta-feira, 15 Abril, 2010 às 18:03
ventanatola
Acho a opinião do Sr.Ramiro muito boa e bem esclarecedora, bem sintetisada referente à temática das energias alternativas. Mas discordo com a ideia de que uma duzia de antenas eolicas nao venham a interferir na paisagem de Sortelha ou outro qualquer local! Uma coisa são duas eolicas, outra é um parque eolico! O nosso concelho é tão grande, cheio de zonas montanhosas e ventosas, porque não redefinir a localização destas antenas!? Mas também digo por outro lado em tom de brincadeira, que com esta polémica toda, Sortelhá já está a ganhar…pelo menos volta a ser noticia! Volto é a perguntar porque não vão colocar estas eolicas na Serra da Estrela!?
Sexta-feira, 16 Abril, 2010 às 0:06
joao valente
As eólicas podem mito bem ser colocadas num local que cause menos impacto. A sensibilidade em respeitar o património histórico deve prevalecer.
Quinta-feira, 22 Abril, 2010 às 15:12
kim tomé
Estamos de acordo!
Mas onde estão os HOMENS que tanto dizem Amar esta terra?
ONDE?
Ou será que o Sabugal, e por consequência Sortelha, é só para as bebedeiras e para alguns encherem os bolsos à conta do património de todos?
Que raio de Amor é este que dizem ter pela terra, que os faz calar logo que sentem umas migalhas a cair da mesa desses que destroem esta terra?
Sexta-feira, 16 Abril, 2010 às 4:32
josnumar
Que se saiba, o movimento “Vamos Salvar Sortelha” nunca usou violência para expôr o seu pensamento. A internet, quer queiram ou não, penetra em sítios e em feridas que, por vezes, faz doer muito e o egoísmo e a avareza de algumas pessoas ficam a nú e as dores às vezes são insuportáveis. No nosso concelho ( e noutros também ) há obras que só são do conhecimento do cidadão comum quando as máquinas aparecem para iniciar o projecto. Claro que a Câmara e as Assembleias de Freguesia andam mais ou menos a par dos assuntos. E os restantes munícipes estarão devidamente informados? Os Editais serão suficientes? Não me parece e todos sabemos que os parques eólicos são um negócio só para alguns e não interessou colocar o projecto em discussão a todos os habitantes da região da aldeia de Sortelha.
Sexta-feira, 16 Abril, 2010 às 11:08
Esteves
Deixo aqui alguns tópicos para reflexão…
Vantagens para a sociedade em geral:
- É inesgotável;
- Não emite gases poluentes nem gera resíduos;
- Diminui a emissão de gases de efeito de estufa (GEE).
Vantagens para as comunidades onde se inserem os Parques Eólicos
- Os parque eólicos são compatíveis com outros usos e utilizações do terreno como a agricultura e a criação de gado;
- Pequena criação de emprego;
- Geração de investimento em zonas desfavorecidas;
- Benefícios financeiros (proprietários e zonas camarárias).
Vantagens para o estado:
- Reduz a elevada dependência energética do exterior, nomeadamente a dependência em combustiveis fósseis;
- Poupança devido à menor aquisição de direitos de emissão de CO2 por cumprir o protocolo de Quioto e directivas comunitárias e menores penalizações por não cumprir;
- Possível contribuição de cota de GEE para outros sectores da actividade económica;
- É uma das fontes mais baratas de energia podendo competir em termos de rentabilidade com as fontes de energia tradicionais.
Vantagens para os promotores:
- Os aerogeradores não necessitam de abastecimento de combustível e requerem escassa manutenção, uma vez que só se procede à sua revisão em cada seis meses.
- Excelente rentabilidade do investimento. Em menos de seis meses, o aerogerador recupera a energia gasta com o seu fabrico, instalação e manutenção.
Principais Desvantagens da energia eólica:
- A intermitência, ou seja, nem sempre o vento sopra quando a electricidade é necessária, tornando difícil a integração da sua produção no programa de exploração;
- Pode ser ultrapassado com as pilhas de combustível (H2) ou com a técnica da bombagem hidroeléctrica;
- Provoca um impacto visual considerável, principalmente para os moradores em redor, a instalação dos parques eólicos gera uma grande modificação da paisagem;
- Impacto sobre as aves do local: principalmente pelo choque destas nas pás, efeitos desconhecidos sobre a modificação de seus comportamentos habituais de migração;
- Impacto sonoro: o som do vento bate nas pás produzindo um ruído constante (43dB(A)). As habitações mais próximas deverão estar, no mínimo a 200m de distância;
- Praticamente não gera emprego local, uma vez que é necessário recursos qualificados.
Sexta-feira, 16 Abril, 2010 às 20:42
josnumar
Mas alguém do movimento “Vamos Salvar Sortelha” se manifestou contra a energia eólica? O movimento apenas se opõe quanto à localização das torres eólicas ali aos pés de Sortelha. Há tantos montes e tinha que ser ali?
Terça-feira, 20 Abril, 2010 às 16:25
nide
Agora que já é visivel de Sortelha o local onde vai ficar a 1.ª torre eólica convido todos para virem ver com os próprios olhos se será ou não um verdadeiro atentado contra esta aldeia.
Será que ainda vai haver quem tenha coragem de continuar a dizer que “nem serão visiveis de Sortelha”.
Realmente… a ganância é cega!
Quarta-feira, 21 Abril, 2010 às 20:11
sofia
Neste seu comentário tenho de lhe dar razão… a ganância é cega e a inveja também.
Porque se este empreendimento desse lucro para todas as pessoas daqui de Sortelha andavamos todos de sorriso na cara.Mesmo eu não tendo sido uma das afortunadas com a colocação destes aerogeradores posso afirmar que fico feliz porque está a evoluir a minha aldeia e em nada a irá prejudicar.
Quinta-feira, 22 Abril, 2010 às 15:17
kim tomé
A Sofia não tomes os outros por si
Eu tenho ORGULHO EM JA TER REJEITADO AS MIGALHAS QUE ALGUNS ME ESTENDIAM A TENTAR CALAR-ME!
EU FALO EM NOME DO PATRIMÓNIO DE TODOS, PERCEBEU?
E SE ALGUMA COISA GANHO COM ISTO É AS NÓDOAS NEGRAS QUE OS SEUS AMIGOS ME FIZERAM E O RISCO DE SER AGREDIDO MAIS VEZES.
PERCEBEU?
Sexta-feira, 23 Abril, 2010 às 8:54
nide
Triste o povo que consente a destruição do seu PATRIMÓNIO NATURAL, em troca de uns miseros euros
Sexta-feira, 27 Maio, 2011 às 12:45
Correia
Sortelha,
Aldeias históricas portuguesas cercadas e vencidas pelo «progresso»,
Sortelha Histórica