Alves Redol destacou-se como romancista e dramaturgo, sendo considerado um dos grandes expoentes do neo-realismo literário português. «Barranco de Cegos» é o seu último livro, editado em 1962, e considerado a sua obra-prima. Em sinal diferente das obras anteriores, a intervenção política e social é posta em segundo plano, centrando-se nas personagens e na sua evolução psicológica.
O livro retrata a vida de um rico lavrador do Ribatejo, que simboliza o poder agrário, cuja história Redol relata a partir de 1891, ano da revolta republicana do Porto. Senhor duma vila, dos terrenos envolventes e de toda a gente que ali habita e trabalha, Diogo Relvas era amo implacável, castigando os que lhe desafiavam o poder, mas compensando os que lhe eram inteiramente fiéis.
Cada homem e respectiva família dependiam por inteiro do proprietário, que tudo administrava com mão de ferro. O seu domínio estendia-se pela Lezíria e também por alguns montes no Alentejo, criando gado cavalar e touros bravos, que eram o regalo das corridas de Portugal e de Espanha. Contrário aos avanços da indústria, que em seu entender ameaçavam o poder da lavoura e os bons costumes, embrenhava-se também nas lides da política, intervindo a favor da monarquia, que se queria de novo absoluta para destronar a força dos liberais e dos republicanos. Influenciava os demais proprietários e mantinha apertado controlo aos movimentos da sua descendência, querendo evitar a decadência do seu império.
Senhor de vida austera e regrada, não evitava porém os desmandos dos filhos e demais jovens descendentes dos proprietários da lezíria, que se entretinham em jogos de sorte e de amores fugidios.
A páginas tantas, quando já se inalava o odor da queda da lavoura tradicional, com o avanço do caminho-de-ferro e das fábricas, descreve-se uma caçada às lebres. Seguiam os ilustres monteiros a cavalo e, após um contratempo, os jovens proprietários e sua companheiras, embrenhados na lide, juntaram-se para descansar e retemperar forças. Sendo momento de descontracção, aproveitou-se para comer. Mas, impondo-se ração de campanha, o acepipe não teve ares de fidalguia, sendo antes uma simples punheta de bacalhau, preparada pelo maioral dos campinos, que acompanhara a comitiva.
«O Salsa pusera-se a preparar uma pívea de bacalhau, desfiando-o o melhor que podia, a frio, após o que se dispunha a temperá-lo com bom azeite da casa, vinagre e pimenta de mão larga, boa para puxar a pinga, sim senhor, enquanto outro campino cozia em duas caldeiras de folha, com lume de bosta de boi, o feijão branco e o toucinho que dariam o caldo.
Começara o Salsa a tratar do torricado, cortando fatia finas de pão de milho que torrava em lume brando, e sobre as quais largava um fio de azeite para lhes dar mais sabor.
- Falta muito, maioral? – perguntava a Quintela, a quem o susto parecia ter arrancado um apetite voraz.
- Da minha mão está pronto…
E assim que os vinhos chegaram com o almoço preparado pela cozinheira dos Relvas, abancou perto do lume, comendo o bacalhau desfiado à mão (não havia garfo melhor que o de cinco pontas) e já a inventar novo capricho. Gostava de saber até que ponto fechava os homens na sua mão pequena.
- Quem comer dum lado não pode petiscar do outro. Nada de lambarices…»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista
leitaobatista@gmail.com

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