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Há uma desilusão generalizada que percorre Portugal de lés a lés. Tudo o que é sistema de valores, ideais e programas políticos, são incapazes de dar resposta a problemas cada vez mais dramáticos que enfrentamos. Resulta daí esta desmoralização, falta de fé, falta de entusiasmo e deterioro das relações sociais e humanas.
Muitos homens, e mulheres válidos, já se recolhem na sua vida privada, e não estão dispostos a assumir um compromisso público. Cada vez é maior a desconfiança que nos despertam os políticos e outros administradores do poder, como deputados e juízes.
O medo apoderou-se da maior parte dos portugueses, é o principal protagonista desta época actual. Medo ao desemprego, medo à delinquência comum, medo aos tribunais, medo à corrupção, medo às ilegalidades das grandes companhias e bancos, que só servem para nos explorar, medo aos imigrantes, medo à destruição do meio ambiente, medo à concorrência, medo às leis absurdas de um cada vez mais pequeno e ditatorial Estado, ás suas prescrições, ás suas imposições, ao seu controlo, ás suas multas, à sua burocracia, e a toda uma série de ameaças com as quais somos confrontados diariamente.
E a corrupção? Foi elevada a lobby, está a minar os alicerces do Estado e a desacreditar a Democracia.
Portugal está a passar por um dos momentos mais baixos, moralmente, da sua história moderna. Os detentores do poder assumem um relativismo ético e moral, e obrigam os cidadãos a uma luta constante de todos contra todos.
Atrevo-me a dizer que tudo isto é causa de uma doutrina burguesa/oligárquica, que impõe os seus interesses, e os seus valores.
Os grandes ideias do Povo Português já perderam o seu sentido? Não temos outra alternativa senão escolher falsos valores, e falsos ídolos fabricados pela doutrina dominante, para nos estupidificar e narcotizar cada vez mais, mantendo assim a sua hegemonia sobre nós? Não! Mil vezes não! Há muita gente que neste País ainda se mantém fiel aos valores verdadeiros como a verdade e a justiça, que são valores universais e intemporais, não dependem de modernismos. Acredito que um deles seja você querido leitor(a).
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio
ant.emidio@gmail.com
Continuamos a transcrever excertos do caderno de apontamentos do Sr. Dr. Francisco Maria Manso, existente na Santa Casa da Misericórdia do Sabugal, onde constam pormenores interessantes acerca da edificação do Hospital do Sabugal.
Outubro de 1934
«Largo tempo sem escrever nestas memórias o seguimento das obras no hospital. Alguns factos se deram dignos de menção: Feita a petição ao Ministro das Obras Públicas para subsidiar as obras do Hospital, depois de muitos pedidos e bastante morosidade nos despachos e devido certamente ao muito interesse mostrado sempre Governador Civil Sr. Dr. A. Borges Pires, chegou enfim a notícia da comparticipação do Estado nas Obras, em cem contos!!! Preciso se torna executar trabalhos para receber esta verba, mas o recebimento há-de ser um facto, como um facto indiscutível há-de ser a sua conclusão e breve abertura ao desempenho da santa missão a que se destina.
6 de Fevereiro de 1938
O facto mais importante a relatar consiste no oferecimento pelo Sr. Pe. Joaquim Manuel Nabais Caldeira de todo o mobiliário do Hospital. A sua generosidade foi ainda até ao oferecimento do material cirúrgico para a sala de operações, consultório médico, etc…
Incumbido pelo Sr. Pe. J.M.N.C. de escolher o material cirúrgico, em ocasião que tive de ir a Lisboa, escolhi nos diferentes laboratórios o material que me pareceu necessário e depois do confronto de preços e qualidades organizei relações do indispensável para sala de operações, consultórios e enfermarias, relações que entreguei ao Sr. Pe. J.M.N.C.
O custo do material escolhido orçava por uns trinta contos e essa importância foi imediatamente posta à disposição para a compra da totalidade do material. Várias reuniões entre o Sr. Sousa Martins, o Sr. Pe. J.M.N.C. e eu, e consultas a casas fornecedoras, fizeram com que se não fizesse a encomenda na ocasião o que originou maior despesa na aquisição, devido à subida de preços nesses materiaes . Feita a encomenda, os caixotes abarrotando de utensílios de toda a ordem, foram colocados na enfermaria (da esquerda) e ali com um interesse admirável o Sr. Pe.J.M.N.C. assistiu à abertura e ele próprio guardou a chave do quarto onde foram guardados.
Se todos nós, se quasi todo o concelho trabalhou para a realização de uma obra que serve para mitigar o sofrimento humano, principalmente d`aqueles que ainda depois de doentes, são pobres…nenhum de nós pode merecer uma parcela de gratidão, dos vindouros, se compararmos o pouco que demos com o que tão generosa e modestamente soube dar essa formosíssima alma de benemérito que é o Sr. Pe. Joaquim Manuel N. Caldeira. Se sabe pregar a caridade porque a sua profissão assim o manda…sabe praticá-la, porque lhe nasce do coração. Não há na dádiva um fim político, um motivo de vaidade. Perante mim, mostrou o desejo que não se soubesse da oferta, não tem ambições políticas o Sr. Pe. J.M.N.C.
Mas se contentamento pode vir de uma boa acção, esse deve senti-lo o Sr. Pe. J. porque os ferros cirúrgicos oferecidos hão-de rasgar o corpo humano à procura das lesões que matam e que estirpadas fazem voltar à vida e dão alegria de viver. Nos leitos que ofereceu hão-de os pobres encontrar o que não tinham em suas casas,… conforto para tratar o seu mal e, à sua roda, carinho consolador, admirável e sempre bem vinda medicação para os que sofrem.
Podemos dizer deste homem que fez alguma coisa pela sua geração, porque aumentou o conforto, o bem-estar e a felicidade dos que sofrem.
Só os que trabalham para o bem da humanidade têm direito à consagração de todos.
Ser bom, ser honesto, não basta, é preciso ser útil aos nossos semelhantes, com dedicação, com interesse desprovido de egoísmo.»
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

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