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Estivemos de novo à fala com Amândio Assis, o empresário do caracol, cuja empresa, denominada «Caracol Real», está sedeada na Cerdeira do Côa, continuando uma conversa que tivemos há um ano e que na altura publicámos no Capeia Arraiana.
O negócio do Caracol Real vai evoluindo, dando passos curtos, mas seguros. A frota automóvel conta agora seis viaturas, sendo uma delas um camião frigorífico com grande capacidade de transporte. Neste período de Verão a firma emprega 15 pessoas, embora no Inverno apenas mantenha seis trabalhadores. O negócio continua em expansão, vendendo caracol para todo o país e exportando para o estrangeiro, onde agora se destaca Angola, para onde seguirão algumas grandes encomendas.
Entretanto avançam as obras nas novas instalações da empresa, que já estão a ser parcialmente utilizadas, mas cujo arranque definitivo apenas acontecerá no ano que vem.
Há quanto tempo confecciona e vende caracol?
Desde há 27 anos, aqui na Cerdeira. Além do mais sou o produtor de caracol pronto a comer licenciado há mais tempo em Portugal.
E como nasceu a ideia deste negócio numa região que há alguns anos não apreciava muito este tipo de petisco?
Eu sempre gostei de caracóis e aprendi a cozinhá-los com o meu pai. Uma vez, quando já fixado nesta região, estava a lavar caracóis para os cozinhar em casa e veio-me à mente a ideia de me meter num negócio de confecção e venda de caracóis pelos bares e cafés da região. E assim comecei, a medo, mas avançando sempre, até chegar à posição que tenho hoje a nível comercial. Subi devagar, degrau a degrau, evitando sempre dar um trambolhão.
E a tão propalada crise mundial também afectou o seu negócio?
A crise sente-se quando toca a receber, que de resto as encomendas até aumentaram. Eu até digo que não temos capacidade para satisfazer as encomendas. Mas na verdade há um certo atraso nos pagamentos por parte de muitos clientes, o que nos causa problemas de tesouraria
As novas instalações poderão resolver esse problema de falta de capacidade produtiva?
Essa é a nossa aposta e julgo que vamos conseguir expandir muito o nosso negócio a partir daí.
E tem concorrência ao nível da região, ou sente que domina o ramo?
A concorrência existe a nível regional e nacional e isso é uma coisa boa. O que eu condeno é a chamada concorrência desleal, onde até chegam a copiar as nossas ideias. Agora são os espanhóis que já se lançaram no fornecimento de caracol pronto a comer, a partir do sul de Espanha. Houve uma empresa que aproveitou os conhecimentos que um português lhe transmitiu e agora lançou-se no mercado. Mas apurei que injectam gás nas embalagens para o produto durar mais tempo, e isso é pouco benéfico para a saúde de quem os consome. Também houve uma empresa da região que decidiu concorrer copiando o formato das nossas embalagens e até as informações impressas nas mesmas. Copiaram com tanta vontade que até reproduziram também o nosso código de barras, assim se denunciando inteiramente. É esta concorrência que eu denuncio porque não é leal e apenas pretende subir aproveitando o trabalho dos outros.
Há algo especial que diferencie o seu caracol?
Desde logo a forma como é confeccionado. Para que se faça uma boa confecção é primeiro necessário fazer uma boa escolha do caracol, pois só assim se garante a qualidade, sem a qual o produto não poderia ir para o mercado. Há que ter a certeza de que todo o caracol que vai a confeccionar está vivo. Temos umas caixas de plástico quadradas com um metro e vinte de lado por sessenta de altura, com uma tampa. É aí que se coloca o caracol que depois, durante a noite, sobe para as paredes da caixa e para a tampa. Esse caracol é apanhado, mas o que fica no fundo é deitado fora porque está morto. Durante cada mês nós deitamos fora centenas de quilos de caracol. Veja o que seria esse caracol ser cozinhado. Deita um cheiro nauseabundo e se o cozinharmos empesta todo o restante e dá-lhe mau paladar. Face a isto eu lanço um alerta aos consumidores de caracol: quando encontrarem no prato caracóis vazios isso significa que a triagem não foi feita e devem parar de comer e reclamar porque isso pode ser prejudicial para a saúde.
Uma boa triagem do caracol é então o primeiro passo para a qualidade do produto?
Considero isso essencial. Eu fui-me aperfeiçoando e concluí que tinha de seleccionar o caracol, porque as coisas têm que ser bem feitas. Hoje posso garantir que não confeccionamos um caracol que não esteja vivo. Mas também lhe digo que tudo começa logo na escolha do caracol quando o compramos aos nossos fornecedores. Eu preocupo-me em seleccionar o melhor caracol em vivo. Fruto da minha já longa experiência, domino bem as técnicas de selecção e consigo escolher os lotes que me garantem uma boa qualidade.
Em que época é que o caracol é melhor?
Dizem que nos meses que têm R eles não prestam. Isso tem a sua lógica porque o caracol só é bom quando ele não se alimenta. Deixa de comer quando começa a apertar o calor, a partir de Maio, quando os campos ficam secos, mas os melhores meses são Junho e Julho. A partir de Agosto, como o caracol não se alimenta, começa a emagrecer. Ele continua a ser bom, mas é já muito pequeno e começa a ficar algo escuro.
Também vende caracol congelado?
Sim, ultracongelamos caracol que é confeccionado precisamente nos melhores meses para o seu consumo e que depois pode ser consumido durante o resto do ano.
E como se deve fazer para consumir esse caracol congelado?
Deve ser preferencialmente descongelado no frigorífico, de forma lenta, porque depois dura mais tempo, ao contrário daquele que é descongelado no momento, que tem de ser todo consumido na hora.
O Caracol Real tem uma fórmula especial de confecção?
A nossa técnica foi aperfeiçoada nos nossos primeiros anos de actividade. Hoje o Caracol Real tem uma receita própria, muito rigorosa, com os condimentos apropriados e tudo controlado por peso e medida, de maneira a mantermos o paladar que o caracteriza.
E nunca recebeu reclamações quanto ao paladar?
Já sucedeu. Lembro-me uma vez de um cliente que telefonou a dizer-me que o caracol parecia insonso. Disse-lhe que lhe adicionasse um pouco de sal e o fizesse levantar fervura, o que o mesmo fez, telefonando-me de seguida a afirmar que já estava óptimo. Concluí que na confecção daquele caracol falhou a adição do sal. Isto pode acontecer.
Como empresário, o que pensa da economia regional em termos de presente e de futuro?
Há oportunidades a aproveitar. Temos boas estradas, embora uma ou outra estrada secundária não reúna boas condições de circulação, e isso é uma vantagem competitiva. O mesmo não digo do comboio, que o temos aqui à porta mas sem que os empresários o possam utilizar, porque a antiga Estação da Cerdeira já é apenas um apeadeiro sem qualquer importância. A vizinhança com Espanha também deve ser vista como uma potencialidade. No geral penso que temos condições de expansão dos negócios, desde que os apoios oficiais nos cheguem, pois isso é essencial para quem investe no interior.
plb
Visitando esta aldeia da Beira Baixa não se consegue adivinhar a sua importância e riqueza de outrora. Foi fundada no século I a.C., sendo então capital da circunscrição administrativa romana Cívicas Igaeditanorum.
IDANHA-A-VELHA – Embora não se saiba muito sobre a vida em Idanha-a-Velha nesta época, os historiadores pensam que tenha tido uma fase de grande enriquecimento, até porque era um ponto de paragem na grande estrada peninsular que ligava Emérita Augusta (Mérida) a Braccara Augusta (Braga). A povoação estendia-se da entrada norte até às margens do rio Ponsul, que delimita a sudoeste e oeste. No centro situava-se o fórum, um espaço rectangular contornado por um muro, que tinha na cabeceira Oeste um templo dedicado a Vénus. A Sul, deveriam ficar as termas. Nos séculos III e IV d.C., foi construída uma muralha que apenas protegia parte da povoação, a qual não foi suficiente para evitar que Idanha-a-Velha, tenha passado para as mãos dos Suevos no século V. Aliás, todos os indícios apontam para que a muralha tenha sido reconstruída por diversos conquistadores ao longo do tempo.
Do período de domínio dos Suevos destaca-se a criação da diocese da Egitânia, por decisão do rei Teodomiro no ano de 569, dirigida a partir de Idanha-a-Velha. Em 585 passa a integrar o reino visigótico e a cunhar a sua própria moeda em ouro.
A actual Sé Catedral deverá ser uma evolução de uma primitiva edificação visigótica e o baptistério junto à porta Sul da Sé, uma herança da primeira basílica paleocristã da antiga vila. Deverá ter sido um templo suevo transformando em catedral pelos bispos visigodos que, depois, foi sofrendo várias obras até se chegar à construção que hoje pode ser visitado.
Em 713, Idanha-a-Velha conhece novos ocupantes. Desta vez, os muçulmanos. A prosperidade aumenta e Idanha-a-Velha cresce atingindo a dimensão de centros urbanos como Silves, Beja e Lisboa, bastantes relevantes na época. A Sé Catedral visigótica terá sido transformada em Mesquita, na qual se realizaram obras de reestruturação e acréscimos. A porta norte foi construída nesta altura.
A reconquista cristã foi complicada. D. Afonso Henriques entregou-a à Ordem do Templários. Contudo, viria a ser reconquistada pelos mouros, sendo libertada por D. Sancho I que a doa novamente aos Templários. No entanto, os muçulmanos voltariam a ocupá-la. Assim, não é de estranhar que Idanha-a-Velha esteja já numa fase de decadência quando D. Sancho II a entrega mais uma vez à Ordem dos Templários, em 1244. Da época do governo dos Templários destaca-se a torre que foi construída sobre o podium do fórum.
O empobrecimento de Idanha-a-Velha agravou-se com a deslocação das fronteiras mais para Sul e Leste, alterando com isso os eixos estratégicos e militares. Além disso, é um local com pouca aptidão defensiva. Em 1 de Junho de 1510, D. Manuel I concede-lhe um foral novo. Esta feita tentativa para restituir à cidade a importância de outrora.
Situada a 15 km de Idanha-a-Nova, sede de concelho, e a 31 km das Termas de Monfortinho – que faz fronteira com Espanha – , Idanha-a-Velha é conhecida pela sua beleza natural e pelas suas características de um museu aberto, ideal para quem gosta de turismo cultural e de embeber-se das paisagens que emolduram a história.
«Terras entre Côa e Raia», opinião de José Morgado
morgadio46@gmail.com
No geral os nossos campos estão em acalmia. A desertificação e o abandono da lavoura no interior levaram a que o mato crescesse, sendo agora presa fácil para as chamas que lavram a seu bel-prazer. O homem, entretanto, refugiou-se nas cidades onde não dá mostrar de querer sair.
Quando eu era rapazola os campos andavam pejados de gente. A terra era cultivada até ao limite e havia um constante, e às vezes infernal, bulício do nascer ao pôr-do-sol. Soavam, intermitentes, as campainhas do gado, chiavam os carros de vacas com veio de freixo, gritava a canalha na guarda dos animais e a gente graúda no decurso dos trabalhos agrícolas. Se era no verão, cantavam os ranchos de ceifadores e de sachadores e as noras gemiam ao rodar, tocadas por burros ou vacas.
Confesso que dava gosto andar pelos campos, embora seja doloroso imaginar a vida dos homens e mulheres que antigamente trabalhavam de sol a sol para apenas garantirem a sobrevivência.
Nos anos 70 do século passado, deu-se uma transformação neste frenesim: A introdução dos motores de rega, que massivamente substituíram as noras e as picotas. Isso trouxe ainda mais barulho aos campos. Era um som ensurdecedor quando se passava pelas veigas e se ouvia o matraquear constante dos pequenos motores a dois tempos, movidos a petróleo, que sugavam água das ribeiras, poços e presas.
Eis entretanto que os campos foram verdadeiramente abandonados, deixando de se cultivar as melhores nesgas de terra. O mato cresceu por todo o lado e as silvas e as giestas substituíram os feijões, os batateiros e o centeio. Agora tudo é sossego.
Há alguns anos, no verão, dei uma volta pelo campo, querendo espairecer e matar saudades, percorrendo o vale da ribeira de Palhais, de Pouca Farinha à Quinta do Costa. Digo-lhes que tudo ali é silêncio, salvo o som de algum camião que passa na estrada.
Deixaram acabar a vida intensa que noutro tempo se vivia nos campos, de onde de resto as pessoas garantiam o seu ganha-pão. Embora vivendo com privações, tudo era de superior qualidade.
De caminho apanhei uma maça bichosa de uma macieira que ali restou. Pois digo-lhes que me soube melhor essa maça já furada pela lagarta, do que as que usualmente como, vindas do supermercado, todas muito reluzentes e bem polidas.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

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