Churras são as ovelhas autóctones cobertas de lã grosseira, em contraponto às ovelhas merinas, mais recentes, que produzem lã mais fina. Ora o povo dizia «tchurras» e há na freguesia o topónimo «Panchorras» (ou Panchurras), na margem esquerda da ribeira do Boi. Portanto Pêga era terra de ovelhas e, necessariamente, terra de pastores, ou «pegureiros».
Em 1758 o pároco da freguesia, face aos quesitos do inquérito promovido pelo Marquês de Pombal às paróquias do Reino, respondeu: «Nesta terra não há coisa digna de memória de que se possa fazer menção». Célio Rolinho Pires nunca se satisfez com aquela resposta. Um dia vieram parar-lhe às mãos os «Livros Velhos da Irmandade das Almas», e tornou-se-lhe aí clara a necessidade de se fixar a memória desta terra do extremo sul do concelho da Guarda.
O valor de Pêga começa na sua gente. Gente de paz e de coragem, mandada à vida, nas lutas e labutas do quotidiano. Agarrada à rabiça do arado na decrua e sementeira da terra, de foice em punho ceifando o centeio, pegada ao cabo do mangual malhando o pão para alimento de todos os dias. Gente dedicada ao trabalho árduo para garantir a sobrevivência, mas também com propensão para a comédia no tempo do Entrudo e o bailarico nas noites festivas. Também havia a tristeza, que o este povo enfrentava estoicamente: a miséria dos pedintes, o drama dos expostos, a mágoa perante a morte, aqui especialmente aliada ao percurso fúnebre da aldeia anexa, Monte Vasco, para o cemitério da freguesia.
É tudo isso que Célio Rolinho Pires nos retrata no seu livro, fazendo ainda uma incursão aos vestígios de eras remotas, bem expressos nas pedras.
Um livro que resultou de trabalho aturado, de uma investigação profunda, feita por homem escrupuloso, também ele gente que nasceu, cresceu, viveu, e vive, na aldeia de Pêga, entre os seus. «Pêga – Terra de Panchurras» não é uma monografia qualquer, feita para reunir o essencial da memória da terra. O professor Célio vê mais longe, e foi em busca das origens. Explana a forma como a terra nasceu e se manteve ao longo dos tempos, explica as suas tradições mais marcantes, elucida a forma peculiar como o povo se exprime.
Referencia-se o mais ilustre descendente de Pêga: o escritor Nuno de Montemor ou, de verdadeiro nome, Joaquim Augusto Álvares de Almeida. Embora nascido em Quadrazais, o pai era de Pêga, oriundo de uma família de gente honrada, com alguns teres e com boas casas de lavoura, além de forte propensão para o negócio.
Hoje os caminhos vicinais estão ao abandono. Já ninguém os percorre para ir às tapadas e aos chões, onde agora cresce o matagal. Por isso, a pensar em novos tempos, o autor apresenta um mapa com a Rota das Pedras, em que sugere passeios ao redor da aldeia, percorrendo os antigos caminhos carreteiros, em busca dos vestígios de antigamente.
Uma monografia essencial, que o autor justifica assim: «Para que os futuros meninos de Pêga, estejam onde estiverem, saibam que também eles tiveram avós e que há uma terra, algures, que estará sempre à sua espera».
plb

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1 comment
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Quarta-feira, 14 Janeiro, 2009 às 3:44 pm
idalino canhoto carvalho
Boa tarde amigo Célio, a expectativa criada à volta do teu livro “Pêga – Terra de Panchurras” posso dizer-te que foi alcançada e muito positivamente, para quem como eu que emigrei muito novo “saí de Pêga com 2 anos” foi muito bom reviver os locais por ti abordados assim como as evidências de registos muito antigos. A escrita é clara e os temas muito bem coordenados. A pesquisa acredito que tenha sido árdua, mas valeu a pena porque é esclarecedora mesmo para quem não conhecendo pessoalmente, sempre ouviu falar desses nomes e dessas pessoas.
Já adquiri o livro “País das Pedras” e espero que vá sentir o mesmo que senti ao lêr o “Pêga…”
Um grande abraço de bem haja pela obra e continua porque para mim estás no bom caminho, sejas feliz e faças felizes os outros que lêm as tuas obras.