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De há muito que os emigrantes de Vilar Maior protestam por a sua festa anual se realizar apenas em Setembro, e este ano relançou-se esse debate na freguesia, realizando-se mesmo um «referendo» que ditará o futuro.
Com o fenómeno da emigração, quase todas as freguesias do concelho do Sabugal transferiram as suas festas maiores para o mês de Agosto, que é quando os que estão longe vêm às terras de origem. Mas em Vilar Maior a tradição foi mais forte e a festa do Senhor dos Aflitos, em tempos uma das maiores da raia, permaneceu no primeiro domingo de Setembro.
Em Vilar Maior há muito que este assunto se discute, mas este ano a polémica foi relançada e os emigrantes voltaram a pedir a alteração da festa do Divino Senhor dos Aflitos para o mês de Agosto, em substituição da festa dedicada à Senhora de Fátima, ou festa do emigrante, como é conhecida na freguesia.
Os interessados reuniram na Junta de Freguesia no passado dia 17 de Agosto e decidiu-se que no domingo, dia 24, haverá uma votação, onde se decidirá o futuro das festividades.
A votos vão várias propostas:
A primeira, de Henrique Silva, é pura e simplesmente mudar a data da Festa do Senhor dos Aflitos para o mês de Agosto.
A segunda, de António Gata, propõe a realização da festa em dois momentos: Em Agosto, em data a acertar, e em Setembro, na data tradicional, com uma única comissão de festas.
A terceira proposta, formulada por Cláudia Marques, defende a realização de duas festas religiosas integralmente iguais, uma em Agosto e outra em Setembro.
A quarta é manter a Festa em Honra do Divino Senhor dos Aflitos no modelo e data actuais.
A quinta opção de voto é acabar com as festividades em Vilar Maior.
O povo da freguesia está apostado em acabar de vez com a polémica que surge todos os anos e que este Verão foi particularmente viva, já que os emigrantes que ainda «esticavam» as férias por uns dias para assistirem às festas estão este ano praticamente impossibilitados de o fazerem, atendendo a que a data tradicional da festa é apenas em 7 de Setembro.
plb
Dois amigos, António Pissara e Angel Hernández Gómez, um português e outro espanhol, escreveram e editaram um livro que retrata a realidade das terras do concelho do Sabugal, tendo por quadro de fundo a tourada com forcão ou capeia arraiana. Neste tempo em que o ciclo das capeias se aproxima do fim aconselha-se a sua leitura para melhor conhecimento desta tradição taurina.
«Terras do Forcão» é um livro escrito em quatro línguas (português, castelhano, francês e inglês), com uma imensa profusão de fotografias, de óptima qualidade gráfica, que pretende ser um meio de promoção e divulgação do concelho do Sabugal, em especial das suas terras da orla raiana. O livro evolui ao redor do imaginário da capeia arraiana, que «começa na infância com as brincadeiras na escola e nos tempos livres, nas expressões utilizadas, onde o grito “Eh, Boiii!!!” é referência».
Os autores são amigos de longa data. Angel Hernández Gómez é professor e é natural de Gata, aldeia espanhola da linha raiana. É um apaixonado pela fotografia e gosta especialmente das terras do concelho do Sabugal, que percorre abundantemente, sempre com a câmara fotográfica ao lado. António Pissara também é professor e é ainda director do semanário Nova Guarda, estando ligado a Aldeia Velha pelo casamento.
O livro foi editado em 2003 e assume-se sobretudo como uma obra de divulgação. Fala com abundância do concelho do Sabugal, muito para além das terras onde tradicionalmente se faz a capeia, mas centrando-se sobretudo nestas: Aldeia da Ponte, Aldeia do Bispo, Aldeia Velha, Alfaiates, Fóios, Forcalhos, Lageosa da Raia e Soito. Também descreve a raia espanhola, onde os touros pastam na devesa, guardados por exímios cavaleiros, que mantém uma ligação permanente com as terras portuguesas. Explica-se no que consiste o forcão, enquanto instrumento de desafio dos touros, cuja origem histórica se perde na noite dos tempos. Também se explicam os rituais ligados às touradas, como o pedido da praça e o passeio dos rapazes, abordando-se ainda o encerro. A páginas tantas aborda-se a tragédia que muitas vezes acontece nas capeias. O arrojo desmedido ou a simples distracção têm ocasionado dramas, que o povo sente com intensidade.
O livro vive sobretudo da imagem. Há muitas fotografias antigas, testemunhando as touradas e os encerros de outrora, quando a praça ainda era vedada apenas com carros de bois carregados de lenha. Há imagens do rio Côa, das nossas paisagens naturais, dos monumentos, do povo assistindo às touradas com expressões de alegria e de apreensão. Também se reproduzem colecções de cartazes de várias épocas, através dos quais se divulgam as capeias, aí pontuando as que se realizaram no Campo Pequeno em Lisboa, pela mão da Casa do Concelho do Sabugal.
O precioso livro pode adquirir-se na Câmara Municipal do Sabugal, que patrocinou a edição.
plb
«É um dado incontroverso e incontrovertível que para poder subsistir o homem necessita de meios de subsistência, numa palavra, de bens. Bens que, sendo económicos (ou por momentânea impossibilidade de acesso ou pela sua definitiva escassez), são objecto de disputa entre os homens…» (Orlando de Carvalho)
Para ser grande, sê inteiro
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Ricardo Reis
Era desta forma redonda, perfeita e absoluta que o professor catedrático de Coimbra, Orlando de Carvalho, iniciava as suas lições de Direitos Reais, ou Direito das Coisas.
Em Coimbra, o nome deste professor catedrático era sinónimo de terror para os alunos atendendo aos seus patamares de exigência e rigor. Este professor que aprendi a respeitar e admirar depois da reverência inicial, era antes de mais exigente e rigoroso com ele próprio. Para além da formação científica de que era portador e que gostava de transmitir aos alunos, quer nas aulas, quer através da escrita, era uma consciência cívica e cultural brilhante, que nunca abdicou dos princípios que defendia e de que a sua obra escrita para além do direito é testemunho.
Cruzei-me com ele a ultima vez num restaurante de leitão da Bairrada num 1.º de Maio e lá estava com lenço e gravata bem vermelhos, nunca perdendo o seu ar austero. Nestas férias judiciais tive disponibilidade para o prazer de reler a sua sebenta e concluir que na sua escrita nada está a mais. Tudo é perfeito, com significado e sentido!
Eram assim os homens de carácter e de princípios.
Nestes dias em conversa com um amigo artista plástico, quando lhe perguntei se tinha vendido bem na sua última exposição, respondeu-me que tinha vendido a série toda do trash.
Numa revista de língua inglesa constato com alguma naturalidade que nos EUA, o sucesso na música, na televisão, na literatura, no cinema e nos jornais, está no trash. Quanto mais lixo, mais sucesso. Afinal por aqui não inventámos nada com a música pimba e o telelixo, uma vez que como me dizia um colega de profissão, no final do dia saturado de processos e de julgamentos, «não tenho paciência para pensar. As telenovelas distraem-me e não me obrigam a pensar».
O trash domina este mundo globalizado, saltando para a cena política, só assim se compreendendo como Bush chega ao poder e encaramos com naturalidade ser governados por políticos que não conseguem explicar como obtiveram as suas licenciaturas. Deixámos de ser exigentes connosco e com os outros, demitindo-nos do exercício da cidadania, caro professor.
Como afirmava Orlando de Carvalho «os bens escassos são objecto de disputa que, gerando conflitos – conflitos de interesses – … temos que atender ao princípio do primum vivere, deinde philosophari, sempre fiéis à máxima maquiavélica de não olhar a meios para atingir fins.
:: :: PARA LER :: ::
«1998 – Orlando de Carvalho, Escritos. Páginas de intervenção I. Notas & nótulas de literatura e arte», Livraria Almedina.
«Sobre a noite e a vida, Poemas», Orlando de Carvalho.
:: :: PARA OUVIR :: ::
«The Young Maverick», Glenn Gould.
«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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