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Almoçámos e conversámos com o juiz desembargador Gabriel Catarino, na Casa do Concelho do Sabugal em Lisboa. Nascido em Pinhel, o actual juiz do Tribunal da Relação de Coimbra, viveu a sua primeira experiência enquanto magistrado no Sabugal, em cuja comarca exerceu as funções de delegado do Ministério Público durante um ano.

Gabriel CatarinoGabriel Catarino é um beirão genuíno, que preza a amizade, aprecia o convívio e admira a boa gastronomia regional. Avesso a proeminências, gosta de conversar com toda a gente, sem rodeios e sem formalidades, dizendo frontalmente o que lhe vai na alma. Ainda jovem deixou a cidade de Pinhel para abraçar o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Após licenciado resolver seguir a carreira de magistrado, começando por ser delegado no Sabugal, em 1979, vivendo na vila raiana uma experiência inolvidável. Depois, já enquanto juiz, andou por Matosinhos, Golegã e Pombal, acabando no Tribunal da Relação de Coimbra, onde exerce actualmente funções, apreciando recursos e aguardando vaga para subir ao Supremo Tribunal de Justiça. Entretanto foi também Director Nacional Adjunto da Polícia Judiciária, onde teve a seu cargo a Direcção Central de Investigação ao Tráfico de Estupefacientes. Passou ainda por Comissário Nacional para os Refugiados, Director Nacional Adjunto da Policia de Segurança Pública e Director-Geral do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
– Porque razão começou a sua carreira de magistrado no Sabugal?
– Verifiquei que havia ali uma vaga para delegado e concorri. A escolha teve a ver com a ideia que tinha de que havia entre o Sabugal e a minha terra, que é Pinhel, afinidades territoriais e culturais, que facilitariam a minha integração.
– E descobriu essas afinidades?
– Não, foi um puro engano. Para minha grande surpresa, não havia grandes afinidades, para além dos factores humanos que são intrínsecos aos beirões, que constituem o seu
ethos, como a frontalidade, a honestidade, a hospitalidade e a amizade. Os sabugalenses têm a alma dos beirões, mas no resto são muito diferentes. Talvez a proximidade com Espanha, seja o traço diferenciador, traduzido no contrabando, ou melhor, no mercandejar constante com o outro lado da fronteira. E digo mercandejar, porque era um tipo contrabando que não era eticamente censurável.
– Enquanto delegado do Ministério Público teve processos onde o crime era o contrabando?
– Claro que sim, tive muitos. Mas quase tudo acabava irremediavelmente arquivado, porque os inquéritos respeitavam a desconhecidos, indo a mercadoria apreendida a leilão. Assisti pessoalmente a alguns desses leilões, e aí tomei verdadeira consciência de que aquele era de facto um povo diferente. Havia um espírito muito forte entre os contrabandistas, seguindo-se uma espécie de código de conduta que todos respeitavam escrupulosamente. Cada contrabandista arrematava o lote do inquérito correspondente às mercadorias que lhe haviam sido apreendidas. Ninguém lançava nas mercadorias dos outros e cada um retomava, a módico valor, as mercadorias que as autoridades lhes haviam retirado. Ora isto é verdadeiramente diferenciador. Havia ali uma forma própria de estar, fazendo com que o risco daquele mercandejar fosse menor do que era de esperar.
– Conviveu com muita gente do Sabugal durante esse ano em que ali desempenhou funções?
– Nem por isso. Devido ao que acabei de dizer, protegi-me um pouco, mantendo um convívio restrito a algumas amizades, para evitar a critica social, que ali era muito forte. Dava-me muito bem com o Coronel Afonso, na altura Tenente, que comandava a Guarda Fiscal local. Juntávamo-nos muitas vezes e desses encontros recordo sobretudo a boa gastronomia que o Sabugal possuía. Naquele tempo havia dois restaurantes de eleição: o do Lei, junto à Câmara Municipal, e o do Orlindo Mono. Este Mono, que era como lhe chamávamos, tinha um cabrito espectacular, com um sabor único, que nunca mais voltei a experimentar. Era preparado sobre a brasa, mas com um tratamento especial, que o tornavam divinal, ou sápido, como diria o José Quitério.
– E os casos que havia no tribunal do Sabugal eram interessantes para um jovem magistrado em início de carreira?
– Deram-se nesse ano muitas situações peculiares. Naquele ano de 1979 houve muitas quezílias resultantes das eleições autárquicas, que eram livres, após décadas de ditadura. Assisti a casos de desavenças políticas que invalidaram relações de amizade e até infestaram o ambiente familiar. No tribunal havia processos por injúrias derivadas da luta politica local. Recordo um caso no Soito que me comoveu muito, em que os meandros da disputa política ocasionaram um enorme conflito familiar, entre dois irmãos que ficaram desavindos. Mas no tocante a processos recordo ainda o primeiro inquérito que me coube analisar. Tratava-se de um caso algo mediático, com referências constantes na imprensa, inclusive com ecos na imprensa nacional. O pároco de Rendo, a que todos chamavam Padre Zé, foi acusado pelo povo da paróquia de ter vendido a imagem de um santo que ele retirara da igreja para mandar restaurar em Braga. O povo considerava que a imagem do santo restaurado não era a mesma que antes estava na igreja e decidiu fazer queixa do padre. Os ânimos estavam muito acirrados e a questão assumia grandes repercussões. Depois de uma aturada análise acabei por arquivar o processo, porque concluí estar provado que a imagem nova era mesmo a antiga restaurada.

plb

Subjacente a cada projecto de investimento deve existir uma filosofia, um fio condutor devendo neste momento ser priorizado o investimento em equipamentos capazes de por si criar postos de trabalho. E acreditar que nenhum fracasso é definitivo e que devemos continuar a lutar pelos nossos ideais.

«Pain is only temporary. Victory is forever.»
(A dor é passageira. A vitória é para sempre.)

José Robalo – «Páginas Interiores»Foi com este mote que o número um do ténis mundial pisou a relva de Wimbledon, torneio que o tenista suíço Roger Federer já venceu cinco vezes; pronunciou estas palavras, depois de ter sido humilhado na terra batida de Roland Garros em Paris por Rafael Nadal, o especialista do momento neste tipo de piso e líder da armada espanhola.
Nesta operação de marketing, Roger Federer afirma-se como um grande campeão que é recordando que Roland Garros foi a dor e que Wimbledon será a vitória para sempre que o fará esquecer o fracasso anterior. Exemplarmente este grande campeão recorda-nos que nenhum fracasso é definitivo e que devemos lutar sempre pelos ideais em que acreditamos.
Alarmante é o nível de desertificação humana do concelho do Sabugal onde se pode começar a questionar a existência de duas escolas públicas atendendo à quebra galopante da população escolar dos últimos anos.
É urgente «dar uma pedrada no charco», tomar medidas e políticas que estanquem e invertam esta tendência de despovoamento, criando postos de trabalho, fixando pessoas, porque assim a vitória é para sempre.
Não podemos continuar a esbanjar os nossos dinheiros em investimentos que não tenham capacidade de criar riqueza e capacidade de criar emprego, depauperando o erário municipal em investimentos que não tenham capacidade de criar um único posto de trabalho directo ou indirecto. Subjacente a cada projecto de investimento deve existir uma filosofia, um fio condutor devendo neste momento ser priorizado o investimento em equipamentos capazes de por si criar postos de trabalho.
Casa de Cristo-Rei na Ruvina e Irmã Felicidade RamosA Casa de Cristo-Rei da Ruvina, é uma instituição que ao longo de décadas tem desenvolvido um trabalho meritório no campo social e no apoio à infância e que concomitantemente criou uma dezena de postos de trabalhos directos.
Na definição da Carta Educativa do Concelho, esta instituição vai ser parceira na implementação na Ruvina de um centro educativo, tendo em consideração as crianças da instituição, mantendo assim aberta a escola onde aprendi a ler e a escrever.
Penso que essas instalações poderiam ser ampliadas e melhoradas, aumentando o número de crianças, com o correspondente incremento de postos de trabalho directos. Esta é uma mais valia que deveria ser explorada, aproveitando e potenciando este know-how, com pergaminhos de décadas na área do apoio à infância desprotegida.
A Directora da instituição, a irmã Felicidade Ramos, mergulhada na dor e luto pelo desaparecimento de mais um membro da comunidade, a irmã Otília, lisonjeia-me com a sua perene amizade e confidencia-me: «Estamos à espera que nos batam à porta. Temos crianças de todo o País e até cá temos umas meninas guineenses e estamos sempre disponíveis para receber, qualquer criança necessitada. A Liga dos Servos de Jesus vive como no tempo dos primeiros cristãos. Esta instituição foi fundada no dia 13 de Maio de 1934 e já chegou a ter 60 crianças em regime de internato.»
Será assim tão difícil potenciar a criação de novos postos de trabalho nesta instituição?

:: :: PARA LER :: ::
«Em busca do tempo perdido», de Marcel Proust.

:: :: PARA OUVIR E DANÇAR :: ::
«Laurent Wolf, Wash my world», nomeadamente «No stress Columbia».
«Dizzy Gillespie, Live at the Village Vanguard», acompanhado ao piano por Chick Corea e Elvin Jones na bateria, da Blue Note.

:: :: PARA VER :: ::
«Concerto de Piano e Saxofone», dia 21 de Julho de 2008, pelas 21.30 horas, no Auditório Municipal do Sabugal, com a presença dos seguintes músicos, alguns deles jovens sabugalenses, Domenico Ricci, Rita Lourenço, João Cunha e João Nunes. A não perder.

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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