«O privado também é político» (slogan de Maio de 68).
Seria impensável da minha parte pretender ofender alguém com o meu artigo «O comércio da cidade». Está fora de dúvida o papel que a iniciativa privada teve e ainda tem no progresso da humanidade. Está também fora de dúvida que contribuiu e contribui para o desenvolvimento do nosso Concelho e até para atenuar a desertificação.
Mas os tempos mudaram, o que antigamente era uma sã convivência entre todos os que tinham uma casa aberta, passou a ser uma feroz concorrência, essa luta de todos contra todos. Como a concorrência é um subvalor do sistema capitalista, mas ao qual ele mais se aferra, singrarão somente os que mais dinheiro tiverem, ou então os que estiverem apoiados no grande capital financeiro e comercial. Essa concorrência já é bem palpável.
Faltou dizer no meu artigo que tenho receio que os mais humildes se vejam um dia desapossados daquilo que com tanto sacrifício conseguiram, um negócio, e que com mais sacrifício ainda pagam essa usura bancária a que se convencionou chamar empréstimo, que é um dos maiores crimes que se cometem contra os que necessitam. E quando já não puderem pagar ficam sem o pouco que tiverem e caem na pobreza, e até na miséria. O Estado quando já não quer saber dos seus cidadãos deixa-os ao abandono ou nas mãos do grande capital. É infelizmente o papel dele nesta hora histórica que nos está a tocar viver.
Do fundo do coração vou dizer o seguinte: sinto alegria quando vejo, principalmente os mais jovens, abrirem o seu negócio, mas ao mesmo tempo invade-me uma tristeza pensando que um dia esse sonho e essa maneira de ganhar o pão seja destruída por uma concorrência brutal e desleal, e os deixe depois reféns de um «empréstimo» bancário. Por isso, eu pessoalmente desejo que isso aconteça ao menor número possível de comerciantes.
Amigo Quim Tomé, deixe-me tratá-lo assim, um perdão imenso lhe peço a si e a todos os que se sentiram ofendidos, porque se alguma coisa de heróico ainda há neste Mundo são aqueles que trabalham de sol a sol, muitas vezes com escassos meios económicos e que não sucumbem ao destino adverso a que o sistema os condenou. Ofendê-los é crime, e esse crime eu não cometo.
Amigo Ramiro ! Muito tinha para conversar contigo, se estivesses para me aturar, mas por disciplina de espaço só te digo que já me sinto quase um estranho dentro desta nossa civilização que de civilizada já pouco tem, só assim se compreende que haja tanto descontentamento, injustiça, violência, guerra, exploração e desespero.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio
ant.emidio@gmail.com


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4 comments
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Terça-feira, 8 Julho, 2008 às 9:35 am
Maria
Confesso que partilho de muitas das tuas opiniões Toninho, nesta voraz passagem dos tempos, em que o Ter suplanta o Ser. Outros tempos talvez, mas a minha nostalgia também ainda vai para o sorriso do Sr. David do Depósito, que apesar de nos ver diariamente ainda nos perguntava amavelmente «O que deseja menina?». Esta menina, menina de afecto, menina nascido da familiaridade de quem nos via diariamente e diariamente nos atendia a gulodice. O capitalismo, dizes tu, um conjunto de factores direi eu, o nosso modo de olhar para as coisas dirão outros.
Fica bem e vai percorrendo esse Sabugal airoso e por vezes tão mal cuidado, com esse olhar crítico que geralmente tens.
Terça-feira, 8 Julho, 2008 às 4:23 pm
Quim Tomé
Gostei :)
É de HOMEM, só os Homens sabem reconhecer o que poderão ter dito de forma que ofende os outros e pedem desculpa.
Por mim estão aceites as desculpas e destrinçado o mal entendido.
Prazer em conhecer um Homem.
:)
Terça-feira, 8 Julho, 2008 às 5:03 pm
Ramiro Matos
Caro António
Não estou de acordo contigo quando dizes que a concorrência é um subproduto do capitalismo e que só singram os que têm o apoio do grande capital.
Hoje e sempre vivemos num mundo de concorrência. Falou a Maria do sr. David do Depósito. Mas nessa altura havia mais comércios, desde a Bininha ao sr. Porfírio e tantos outros. E porque é que uns iam a um lado e outros a outro? porque estes comerciantes concorriam entre si na captação dos clientes. Mimavam-nos, davam-lhes a possibilidade de pagar ao fim do mês. Tinham a melhor tripa e o melhor pimento vermelho para os enchidos. Era a concorrência àquele nível e naquele tempo.
Hoje é outro mundo, mas, por ex. a minha mãe não pode ir às grandes superfícies e é a Lena (antes Bininha), ou o Quim Torres ou a Amélia na Praça ou o Toninho do David Alexandre que lhe vendem os produtos, que, se necessário lhos vão levar a casa, ou ela manda lá alguém buscar.
É este o sentido do comércio de proximidade que faz destes comerciantes, concorrentes das grandes superfícies. E por mais que abram no Sabugal, eles continuarão a ser os amigos e parceiros da velhice da minha mãe.
E nada mais injusto e menos verdadeiro que pensar que sem o grande capital (e o que seria de nós se não existisse, ou pensas que o arroz, o açúcar, a gasolina, etc. são produzidos pelo pequeno capital ou sem capital?) não é possível singrar e ter êxito. Basta olhar à tua volta no Sabugal e ver: o João Robalo é um grande capitalista ou tem o apoio do grande capital para o êxito do seu restaurante? O amigo Chapeira idem? A PALEGESSOS, idem? e tantos, tantos outros.
E os grandes negócios que vão por água abaixo?
Ter dinheiro pode ser necessário, mas não suficiente.
Falta a capacidade de empreender! Falta a competência! Falta a inteligência de encontrar o nicho de mercado onde medrar!
Tudo coisas que o dinheiro, não dá…
Ramiro Matos
Quarta-feira, 9 Julho, 2008 às 5:06 pm
João Duarte
O sr. Ramiro Matos coloca no mesmo patamar os grandes capitalistas e os pequenos ou médios empresários como o João Robalo. Ó ilusão!!!
Nada têm em comum…
Tenho lido alguns “posts” de Ramiro Matos e verifico é do PS. Não sei se socialista, mas do PS. Bem faz António Emídio em falar em falso Partido Socialista.
Alguém conhece alguma medida de esquerda tomada por este Governo?
Governo que ,aliás, se limita a gerir o capitalismo, por mais neoliberal que seja.
Se fossem todos como eu pode ter a certeza que o tal PS levava uma grande derrota, nas próximas eleições. Mas uma derrota histórica…
Sou professor, sabe… E não me chateia a avaliação (não me considero tão mau professor, assim), o que me chateia são os Concursos e esta diarreia legislativa do Governo PS.
Acha que deverei estar todo contente com este Governo que inventa leis atrás de leis, só para chatear os professores?
Concorda que um professor de Seia venha trabalhar para o concelho de Sabugal e um do Sabugal vá trabalhar para Seia e não autorizem uma permuta?
Acha bem que um professor com 20 anos de serviço não tenha nenhuma estabilidade profissional, quando tem a sua vida organizada no concelho do Sabugal e tem que ir para um concelho a 100 km, onde nada o seduz?
Porque é que a propaganda governamental já incutiu nas pessoas que agora os professores vão ficar 4 anos na mesma escola ( o ano passado tinha incutido que ficariam por 3 anos), quando isso é uma coisa que só se aplica a uma parte deles, deixando outros milhares (incluindo eu) fora disso? E que me adianta ficar (para mais por 4 anos)numa escola a 120 km de casa, se gasto com isso mais de metade do meu ordenado?
Não sou muito ambicioso: não ligo a carros, não ligo a telemóveis, gosto dum “bom som”,apenas quero trabalhar perto de casa. Porra!!! Tenho 20 anos de serviço. Não comecei agora. Não quero aumento de ordenado, não quero nada disso, só que já não sou nenhum “teenager” que me delicio a correr o distrito. Já tinha feito isso tudo no início da minha carreira, quando , durante oito anos, andava de concelho em concelho , porque era contratado. Hoje pertenço ao Quadro. Tenho quase 50 anos de idade. Quando estive na tropa “a velhice era um posto”. Hoje a velhice não é nada. Coisas lá dos “modernos”.
Já nem foco nos exames e essas tretas todas para a estatística.
Quem disse um dia que havia “professorzecos” não tem perdão da minha parte!!!