«O privado também é político» (slogan de Maio de 68).
Seria impensável da minha parte pretender ofender alguém com o meu artigo «O comércio da cidade». Está fora de dúvida o papel que a iniciativa privada teve e ainda tem no progresso da humanidade. Está também fora de dúvida que contribuiu e contribui para o desenvolvimento do nosso Concelho e até para atenuar a desertificação.

António EmidioMas os tempos mudaram, o que antigamente era uma sã convivência entre todos os que tinham uma casa aberta, passou a ser uma feroz concorrência, essa luta de todos contra todos. Como a concorrência é um subvalor do sistema capitalista, mas ao qual ele mais se aferra, singrarão somente os que mais dinheiro tiverem, ou então os que estiverem apoiados no grande capital financeiro e comercial. Essa concorrência já é bem palpável.
Faltou dizer no meu artigo que tenho receio que os mais humildes se vejam um dia desapossados daquilo que com tanto sacrifício conseguiram, um negócio, e que com mais sacrifício ainda pagam essa usura bancária a que se convencionou chamar empréstimo, que é um dos maiores crimes que se cometem contra os que necessitam. E quando já não puderem pagar ficam sem o pouco que tiverem e caem na pobreza, e até na miséria. O Estado quando já não quer saber dos seus cidadãos deixa-os ao abandono ou nas mãos do grande capital. É infelizmente o papel dele nesta hora histórica que nos está a tocar viver.
Do fundo do coração vou dizer o seguinte: sinto alegria quando vejo, principalmente os mais jovens, abrirem o seu negócio, mas ao mesmo tempo invade-me uma tristeza pensando que um dia esse sonho e essa maneira de ganhar o pão seja destruída por uma concorrência brutal e desleal, e os deixe depois reféns de um «empréstimo» bancário. Por isso, eu pessoalmente desejo que isso aconteça ao menor número possível de comerciantes.
Amigo Quim Tomé, deixe-me tratá-lo assim, um perdão imenso lhe peço a si e a todos os que se sentiram ofendidos, porque se alguma coisa de heróico ainda há neste Mundo são aqueles que trabalham de sol a sol, muitas vezes com escassos meios económicos e que não sucumbem ao destino adverso a que o sistema os condenou. Ofendê-los é crime, e esse crime eu não cometo.
Amigo Ramiro ! Muito tinha para conversar contigo, se estivesses para me aturar, mas por disciplina de espaço só te digo que já me sinto quase um estranho dentro desta nossa civilização que de civilizada já pouco tem, só assim se compreende que haja tanto descontentamento, injustiça, violência, guerra, exploração e desespero.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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