Estamos à beira de mais uma edição das Festas de S. João no Sabugal. A origem da festa, de cariz profano, vem de longe, e deveu-se à ousadia e ao espírito abnegado de alguns sabugalenses que um dia puseram mãos a uma obra que nunca mais parou. Com a devida vénia transcrevemos um artigo que em 22 de Junho do ano 2000 foi publicado no semanário guardense Terras da Beira, que retrata a história da primeira festa de São João.
O São João sempre foi santo querido no Sabugal. Fala-se em séculos de alegria, animação e festa, dias esquecidos de trabalho e fadiga. Mas poucos serão os que se lembram como começou este São João com orquestra, comidas e bebidas, baile e tradição.
Em 1953, por altura do Santo António, o padre da freguesia proibiu a realização do tradicional baile por considerar que se profanava a festa religiosa. Mais certo que dois e dois serem quatro, o povo não gostou do mandato do padre. Nem homens, nem mulheres, jovens, idosos e até «desamparados». Foi o caso da viúva Monteiro, senhora importante na vila e proprietária, entre outras coisas, de uma mercearia. Desengane-se o prior, porque logo encomendou de reunir a juventude para se fazer festa rija no S. João. «Mandai vir uma orquestra, montai barracas para se comer e beber e encontrai um pinheiro bem grande que este ano o São João vai ser a valer!», recorda David Leitão Pires, que então trabalhava na loja da viúva. Encarregado de escolher mais rapazes, logo começaram os preparativos do festejo, os primeiros passos para o São João que hoje se vive no Sabugal.
Foram seis os jovens que arranjaram a festa popular. «Bailes abrilhantados a disco e pelo Neve-Jazz, vistoso fogo de artifício, largada de balões, barracas de chá e café, serviço de bufeto». Havia também a famosa quermesse com as bugigangas que as raparigas ofereciam e os ranchos que contagiavam a dança. Dias de festa em que se esqueciam honras e vergonhas, raparigas e rapazes dançavam até de madrugada. Mesmo vigiadas pelas mães, que também faziam questão de não perder o pé de valsa, as raparigas diminuíam duramente as horas de sono. «A festa durava até às sete da manhã. As raparigas tinham que trabalhar às seis mas aguentavam-se até ao fim», conta David Pires.
Mas, lamenta, «os tempos já não são o que eram», actualmente «isto já nem é São João». Antigamente, recorda, «era só alegria, velhos e novos tudo dançava» e «antes bebiam-se gasosas e comiam-se tremoços por meia dúzia de tostões e agora é preciso andar com o multibanco». David Pires prevê que «mais cedo ou mais tarde isto acaba», mas não nega que o São João, ou as recordações de outrora, se lhe entranharam na alma. «Na altura da queimadura do pinho sinto qualquer coisa cá dentro», afirma. Será alegria, será saudade? É o São João de verdade!
Maria João Silva

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