Tenho participado, ao longo da minha vida de investigador da nossa cultura, em centenas de colóquios, conferências e seminários relativos ao pensamento e à cultura portugueses, tendo sido inúmeras as ocasiões em que essas actividades decorreram em escolas – secundárias e sobretudo universitárias –, em tempo de aulas e com cursos que poderiam aproveitar da participação no Colóquio ou na Conferência.
Acho não ser injusto, nem inoportuno, se disser que tais actividades, embora localizadas nas escolas, decorrem como se fossem no deserto, ou num sítio quase desabitado. Algumas vezes pensei que a ausência de alunos nos auditórios tivesse algo a ver com o facto de os conferencistas não os motivarem. No entanto, em dezenas de casos, colóquios houve que os prelectores eram personalidades de tomo e de vulto, algumas vezes até com forte imagem pública.
Numa universidade com cursos humanísticos não seria difícil organizar os horários de modo a que os alunos pudessem assistir; ou motivar os alunos a prescindirem desta ou daquela aula, indo às conferências e relatando o que ouvissem para o professor. Tal não sucede, havendo quem admita que os professores temem que os alunos ouçam algo que eles ignoram.
No fundo, trata-se de indiferença. Ainda agora, temos o caso do colóquio sobre Joaquim Manuel Correia, no Sabugal. Uma actividade repleta de interesse, do ponto de vista cultural e local. A este propósito, lemos no «Amigo da Verdade»:«A entrada em todos estes eventos foi livre. Embora não fossem muitos os participantes, tivemos, no entanto, uma acção activa, viva e desinteressada.»
De facto, um tão cómodo auditório, bem poderia estar mais cheio, se as pessoas realmente tivessem interesses culturais. Deste modo, como que passam ao lado da vida.
«Carta Dominical», opinião de Pinharanda Gomes
pinharandagomes@gmail.com

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4 comments
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Domingo, 4 Maio, 2008 às 8:07 pm
josé manuel de aguiar
Uma realidade insofismável…
Segunda-feira, 5 Maio, 2008 às 11:03 am
Dina Serra
A indiferença pelo povo
Um convite à participação e envolvimento de todos é diferente de um anúncio e de um cartaz. Covidar é incitar , atrair, seduzir. Envolver é dar voz, motivar, chamar as pessoas, todas as pessoas. Com total respeito pela iniciativa e pelos responsáveis pergunto: houve alguma forma de motivação das escolas e dos professores para participar activamente neste veículo de divulgação da vida e obra deste autor? Na sequência deste acontecimento em vez de lamentar a falta de gente, já alguém se lembrou de apelar à participação das escolas renovando pedidos e contributos para futuros colóquios e conferências?
Já se fez um balanço da iniciativa ? Os responsáveis já procuraram ouvir o que as escolas podem e sentem que estão a tempo de fazer ? O estudo da vida e obra do Dr. Joquim Manuel Correia está a começar. Felizmente não se esgotou numa palestra expressiva. Há que seguir em frente com a colaboração viva dos alunos, dos professores, da gente anónima, de todos os Ruvinenses e do concelho do Sabugal.
Segunda-feira, 5 Maio, 2008 às 11:37 am
jclages
Exma. Dina Serra
Compreendo o seu desabafo mas fica por perceber o que entende por motivação. Esqueceu-se de dar exemplos de motivação. Não tenho dúvidas que não serão económicos.
E já agora gostariamos todos de saber o que «as escolas podem e sentem que estão a tempo de fazer…»
E não podia estar mais de acordo do que quando diz: «Há que seguir em frente com a colaboração viva dos alunos, dos professores, da gente anónima, de todos os Ruvinenses e do concelho do Sabugal.»…
… o problema é que a primeira oportunidade já lá vai e além de brilhantes palestrantes incluiu também o lançamento (explicado praticamente na primeira pessoa) de um livro fundamental para melhor entendermos a nossa história recente.
Já defendi, e continuo a afirmar, que é estranho e preocupante o alheamento de alunos e professores da iniciativa.
Enquanto professor universitário também já substitui aulas por participação em conferências e apresentação posterior de trabalhos individuais e de grupo.
Vai, de facto, uma grande distância entre atitudes passivas e atitudes proactivas.
Cumprimentos raianos,
José Carlos Lages
Segunda-feira, 5 Maio, 2008 às 12:46 pm
Dina Serra
As escolas são espaços de oportunidade educional social e cultural que cada vez mais pautam pela interacção com o meio. Estou em crer que não se regem por interesses de ordem económica. Porque o J.C.L fala no livro “Celestina”, o Municipio poderia motivar as escolas a “adoptá-lo” no sentido de explorarem toda a sua riqueza interdisciplinar e durante o próximo ano lectivo poder ser vivenciado, interpretado e apresentado por alunos e professores nas suas componentes de história, geografia, expressão teatral, língua portuguesa, etnologia, educação visual e tecnológica, etc , etc, etc . Podia até , quem sabe, motivar um salutar intercâmbio com uma Escola Secundária das Caldas da Rainha, estimulando a criatividade dos alunos – lançando um concurso de ideias, a nível da inserção em actividades extra-curriculares, ou outras. Todas as teorias de motivação visam o crescimento e desenvolvimento integral do ser humano. Este será apenas um exemplo entre muitos concretizáveis.
Cumprimentos
Dina Serra