Na sequência do costume, que era o pagamento do vinho em Aldeia da Ponte, no ano já longínquo de 1923, aconteceu uma noite dramática, onde perderam a vida cinco jovens, abatidos com os tiros das autoridades, sedeadas mesmo atrás da Igreja, pois era aqui, que existia o antigo posto desta corporação na nossa Aldeia.
Animados com o pagamento do vinho de um abastado forasteiro, o Sr. Gata, que disponibilizou uma barrica deste néctar, muito apreciado pelos antigos, pois era a bebida dominante na época, lá foram os rapazes fazendo a Ronda pelas ruas habituais, com a algazarra própria de uma juventude, para quem estas manifestações eram uma tradição, durante a noite, nada de especial, apenas o barulho característico dos «aghigos», quiçá devido ao saboroso vinho, não sendo de descartar, por certo, algum grãozinho na asa.
Ao chegarem em frente do posto da Guarda Republicana, esta fez-lhes frente, não os deixando passar, intimidando-os a seguirem por outro caminho. Os rondeiros não arredaram dali, fazendo finca-pé às autoridades, o trajecto normal era aquele, não viam motivo para irem por outro, numa teimosia, que viria de facto a tornar-se uma tragédia.
Depois de algum diálogo, quiçá acalorado, entre o grupo da Ronda e a Guarda Republicana e, não conseguindo esta demovê-los a seguirem por outro caminho, ordenou o Comandante interino do posto, na altura, tiros para o ar, mas nem assim os rapazes desistiram de fazer o habitual caminho da ronda. Como não se intimidaram face a estes tiros, nova ordem, desta vez, em direcção ao grupo da ronda, caindo quatro rapazes, seguindo-se a debandada de todos os outros, em direcção às suas casas, com mais alguns feridos.
No Largo do Sagrado amontoaram-se os corpos dos atingidos, verificando-se que três deles tiveram morte imediata, com um quarto a ser transportado mais tarde, ainda com vida, para o Hospital da Guarda, vindo aqui a falecer.
Temendo a reacção do povo, as autoridades presentes, em número reduzido, tiveram que pedir reforços ao Soito e Sabugal. Chegados os primeiros reforços, toda a povoação foi vasculhada, no dizer de um dos rapazes, que relatou estes pormenores, procurando as autoridades, por tudo o que era sítio, palheiros, «paranhos» e até as «cortelhas» dos porcos foram vistoriadas, na tentativa de encontrar mais algum dos jovens da ronda.
Ainda o sol não raiava, quando um inofensivo pastor, que nada tinha a ver com a ronda, nem era natural de Aldeia, mas que por lá trabalhava, fazia-se ao caminho, em direcção ao gado, sendo confundido, lamentavelmente, com os resistentes à autoridade, foi barbaramente abatido, contabilizando-se assim, a quinta vitima mortal, sem que para nada tivesse contribuído, apenas seguia apressado, para o seu dia normal de trabalho no campo, junto ao rebanho.
Os que escaparam com vida foram chegando a suas casas amedrontados com este acontecimento, que deixou o povo consternado, temendo ser reconhecidos e receando sofrer ainda, alguma eventual represália.
Com a chegada de mais reforços, verificou-se um grande aparato de militares a pé e a cavalo, o caso não era para menos, não deixando ninguém aproximar-se dos corpos, prostrados no chão, mantendo o povo a uma distância considerável, que tinha acorrido em peso, ao local da tragédia, pelo nascer daquele dia fatídico.
Este longínquo episódio sangrento serve para aferir a importância das tradições na nossa Aldeia, para quem estes costumes eram demasiado caros, bem como a sua preservação, podendo levar a consequências extremas, como viria de facto a acontecer.
«Ecos da Aldeia», opinião de Esteves Carreirinha
estevescarreirinha@gmail.com

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