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Depois de publicarmos uma conversa com o poeta da Guarda, Fernando Pinto Ribeiro, damos agora a conhecer um dos seus poemas, que dedicou ao fadista Vítor Duarte, neto de Alfredo Marceneiro.
NAS RUAS DA NOITE
A Vítor Duarte, «Marceneiro III» — Meu padrinho no Fado
No crepitar de estilhaços
de estrelas sobre os espaços
da Lisboa rua em rua —
crucificámos abraços
encruzilhados nos passos
que à noite a lua insinua
Em nossas bocas unidas
sangrámos todas as feridas
dos beijos amordaçados —
salvámos vidas vencidas
que andam na treva perdidas
como num mar afogados
Cegos de sombras e lama
Quando a sede que se inflama
numa inquisição divina —
bebemos o vinho em chama
que sanguíneo se derrama
no candeeiro da esquina
Embriagados de lume
sem dissipar o negrume
do fumo que nos oprime —
rezamos em seu queixume
no cio do meu ciúme
fados do amor feito crime
Crucificamos abraços
encruzilhados nos passos
que a noite nua desnua —
crepitantes de estilhaços
de estrelas quando em pedaços
vêm morrer sobre a rua
Fernando Pinto Ribeiro
Como alguns mortais, sou natural de uma aldeia humilde, muito bonita, mas pequena, situada entre a Guarda e Ciudad Rodrigo e carregada de espiritualidade. Tenho nos ouvidos o cantar dos pássaros e o toque único das Trindades e das Ave Marias dos sinos do Colégio da minha aldeia.
«Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira…e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas poucas coisas que os meus olhos amam e exaltam. A terra e a àgua, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elemental. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação…»
Eugénio de Andrade
Na Ruvina tomei consciência do mais importante da vida tendo aprendido a gostar das pessoas e a valorizá-las pelo que são. Quando falo da Ruvina as emoções assaltam-me e embarga-se-me a voz. O meu pensamento treme, quando falo da minha aldeia.
A nossa essência na vida revela-se naquilo que somos e nesse particular sinto orgulho do que sou, por ser donde sou e por ter uns pais trabalhadores e que padeceram muitas privações, para me darem condições de vida, que eles não tiveram.
Sei que há muita gente que lamenta o facto de não ter nascido num pequeno lugar, para poder sentir-se acompanhado e ter referências. Sempre que posso regresso ao meu tugúrio, retempero forças e visito os locais da minha infância, os odores da minha memória tais como as madalenas de Proust, no seu romance «Em busca do tempo perdido».
Até o poeta Fernando Pessoa afirmava que a sua aldeia era o Largo de São Carlos.
Foi na Ruvina que me cortaram o cordão umbilical, porque na altura não havia maternidades e tudo ficava longe. Foi aqui que aprendi a rir, a chorar, andar, a falar, a ler e a escrever.
Enquanto criança não conheci telefone ou electricidade e como aquecimento tive sempre boas lareiras. Na Ruvina, a luz eléctrica foi inaugurada, deveria ter sete anos. Considero-me um bafejado da sorte uma vez que com os meus amigos de infância, aprendi valores de solidariedade, justiça e respeito. Todos tínhamos apelidos e lembro-me que me zangava quando me chamavam espanhol em referência ao meu passado recente na vizinha Castilla y Leon. Aos mais velhos antes do nome púnhamos um «Ti». Ao prior da freguesia, a cada momento que com ele nos cruzávamos, pedíamos a bênção. Tenho nos ouvidos o cantar dos pássaros e o toque único dos sinos da minha aldeia, as Trindades e as Ave Marias do sino do colégio. As minhas vizinhas foram sempre as santas desse colégio.
Acredito como Rilke, que a nossa pátria é a nossa infância. A minha infância é a minha aldeia. A Ruvina sempre foi e será para mim uma lição de vida e por isso, sempre que posso retorno às origens. Em pensamento nunca a abandono e a ela regresso diariamente. A sua ausência é uma coisa que trago sempre comigo…
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Para ouvir: Georges Brassens Supplique pour être enterre à la plage de Sete, de Philips Phonogram.
Bill Evans: You must believe in spring, da Warner Bros. Masters.
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Para ler: «As Mãos e os Frutos», obra poética de Eugénio de Andrade, Editora Limiar.
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Para visitar: Festa da Senhora das Preces, no domingo, na Ruvina, no Cabeço da Atalaya. A paisagem envolvente é de cortar a respiração.
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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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